Em declarações à agência Lusa após o discurso de encerramento do VI Congresso Extraordinário do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), em que João Lourenço foi eleito líder do partido, Vicente Pinto de Andrade destacou as referências já conhecidas do combate à corrupção e à impunidade, mas também a recuperação da "História" da formação partidária que governa Angola desde a independência, em 1975.

"Hoje, [o discurso] mostra que a visão de João Lourenço é muito mais avançada do que aquela que se podia ler ao nível do discurso que fez como Presidente da República. O discurso sobre o combate à impunidade, à corrupção e à bajulação está mais sustentado do que no passado e de certeza que será apoiado com o trabalho que irá fazer no partido", destacou o dirigente histórico do MPLA.

Mas, mais importante que isso, no entender de Vicente Pinto de Andrade, foi a parte referente à "história" do MPLA, em que João Lourenço recuperou os nomes dos dois primeiros presidentes do partido - Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade - o que aconteceu pela primeira vez em quase 40 anos.

"Hoje, tivemos a oportunidade de se ouvir falar de figuras que foram presidentes do MPLA e de outras personalidades que eram ignoradas [nos últimos 40 anos]. Boa parte da juventude ignora-as. [João Lourenço] reconciliou o MPLA com a sua própria história", frisou.

Para Vicente Pinto de Andrade, a intervenção de João Lourenço foi "pragmática" e marca uma "grande viragem em termos de práticas políticas e também de discurso político”.

Questionado pela Lusa sobre o facto de João Lourenço, também atual chefe de Estado angolano, poder enfrentar obstáculos no caminho, Vicente Pinto de Andrade admitiu que o líder do MPLA "vai tê-los".

"Há sempre obstáculos e o próprio presidente João Lourenço frisou esse facto [no discurso de hoje] e, inclusivamente, pessoas que estão no processo de transformação e que temem consequências sobre a sua própria vida. Não vai ser fácil, mas é um combate a ser travado para mudar a sociedade e evitar que o nosso país se transforme numa república das bananas, como vimos nos anos de 1970, na América Latina", notou.

"João Lourenço mostra que tem capacidade de liderança e que tem ideias para sustentar essa liderança", concluiu.

Na intervenção que encerrou o congresso, o novo líder do MPLA, João Lourenço, reiterou o combate à corrupção, nepotismo e bajulação em Angola, que declarou como "inimigos públicos número um", elogiando, porém, o líder cessante, José Eduardo dos Santos.

Pela primeira vez nos últimos 40 anos, um líder do MPLA lembrou os dois primeiros líderes do partido, Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade, ao agradecer a sua eleição como quinto presidente da força política que lidera Angola desde a independência em 1975, ao que juntou os nomes de Agostinho Neto e Eduardo dos Santos.

João Lourenço foi hoje eleito presidente do MPLA, durante o sexto congresso extraordinário, com uma votação de 98,58%, correspondente a 2.309 votos a favor e 27 contra.

Ainda de acordo com os números divulgados pela comissão eleitoral, votaram 2.342 delegados ao congresso e registaram-se ainda seis abstenções.

A comissão eleitoral declarou que estas eleições - por voto secreto - foram livres, transparente e justas.

João Lourenço, Presidente da República desde setembro de 2017, ascende assim à liderança, também, do MPLA, partido no poder desde 1975.

Durante a manhã, o presidente cessante do MPLA, Eduardo dos Santos, despediu-se das funções, assumindo que cometeu erros ao longo dos quase 39 anos no poder, mas garantindo que sai "de cabeça erguida".

Hoje à noite, decorre a reunião do Comité Central do partido para a eleição do vice-presidente, do secretário-geral e dos membros do Bureau Político.