A definição foi feita à agência Lusa pelo investigador, escritor, jornalista e comentador angolano Jonuel Gonçalves (também conhecido por José Gonçalves), ao analisar a saída de José Eduardo dos Santos da liderança do Movimento Popular da Libertação de Angola (MPLA), o que ocorrerá sábado, no congresso extraordinário do partido.

"Há dois momentos nessa liderança. Antes e depois do acordo de Bicesse [1991]. Eduardo dos Santos adaptou-se melhor que muitos outros, e não só em Angola, aos passos iniciais do multipartidarismo", defendeu o também professor na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro (Brasil) e comentador político da RTPÁfrica.

Para Jonuel Gonçalves, a guerra que se seguiu após as eleições de 1992 acabou por "dificultar bastante os passos seguintes".

"José Eduardo dos Santos, no entanto, montou um bom dispositivo para ganhar a guerra - única forma de acabar com ela - e, quando a ganhou, não anulou o adversário, deixando-lhe espaço político. Não sei se fosse outro o vencedor se as coisas se passariam da mesma forma" permitindo o pluralismo político, acrescentou.

"Esses aspectos fazem parte do legado. São o seu lado mais positivo", disse.

Para Jonuel Gonçalves, a nível económico, porém, o legado de José Eduardo dos Santos é de "crise", sobretudo pela ausência da diversificação que protegeria a economia nacional da dependência em que permanece.

"Mesmo em período de guerra seria possível um certo nível nesse sentido. Aliás, várias guerras têm estimulado a produção essencial nas zonas não directamente atingidas. Mas o pós-guerra também foi desperdiçado no rumo da diversificação, pelo menos agro-alimentar. Como agravante, assistiu-se desde meados dos anos 90 a uma híper concentração de capital nacional numa camada estreita, pouco voltada para o investimento prioritário, factor de prosseguimento nas grandes desigualdades sociais", sustentou.

Quanto às perspectivas que Angola tem pela frente com o fim da "bicefalia" no poder político, o escritor e investigador lembra que qualquer partido de governo tem o seu desempenho partidário dependente da acção governativa.

"Se o projeto de João Lourenço for bem-sucedido no Estado, isso repercutir-se-á no MPLA. Mas há três pontos capitais: dar mais passos na democratização, atrair investimentos para áreas económicas não tradicionais e equilibrar as contas publicas", defendeu.

José Manuel Gonçalves, natural de Luanda, onde nasceu em 1943 (75 anos), passou por várias estruturas e formas de luta pela defesa da liberdade e democracia contra a tentação do Poder e das ditaduras: o movimento independentista, os bastidores da guerrilha, a Assunção do poder pelo MPLA, as batalhas da guerra civil e tem vasta obra bibliográfica publicada em Angola.

É autor de, entre outras, obra como "A Economia ao Longo da História de Angola" (2011), "A Economia de Angola nos Espaços Austrais" (2014) e "A Ilha de Martim Vaz" (2015), tendo colaborado ainda no livro de história intitulado "África no Mundo Contemporâneo" (2015).

"Contos no Fogo Cruzado a Sul" (recuperado em 2017), "Franco Atiradores" e de "Relatos de Guerra Extrema", ambos publicados em 2010, são outros dos livros.