Antes de Angela Merkel, e em quase 25 anos, só outros dois lideres do Governo da Alemanha tinham visitado a área que compreende o ex-campo de extermínio, localizado na atual Polónia – mas na Segunda Guerra Mundial sob ocupação nazi. A viagem acontecerá um pouco antes do aniversário dos 75 anos da libertação de Auschwitz pelos soldados soviéticos do Exército Vermelho, a 27 de janeiro de 1945.

"A visita é um sinal particularmente importante de interesse e de solidariedade, numa época em que os sobreviventes de Auschwitz são vítimas de insultos antissemitas e de e-mails de ódio", afirmou o vice-presidente executivo do Comité Internacional de Auschwitz, Christoph Heubner.

A visita também acontece numa altura em que as últimas e mais famosas testemunhas que sobreviveram ao campo estão a falecer, como a francesa Simone Veil, em 2017, ou o norte-americano Elie Wiesel, em 2016. Os dois foram deportados para este campo, local onde foram assassinadas quase 1,1 milhão de pessoas, entre 1940 e 1945.

Minuto de silêncio em tempos de violência

Angela Merkel, que foi convidada pela Fundação Auschwitz, estará acompanhada pelo primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, por um sobrevivente e por representantes da comunidade judaica.

Está previsto que a chanceler passe pelo portão de entrada, o qual que inclui o sinistro lema do regime nazi para este campo de concentração: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta", em português). Em seguida, respeitará um minuto de silêncio diante do chamado Muro da Morte, onde milhares de detidos foram fuzilados.

Durante a tarde, seguirá para outra parte do antigo complexo, Birkenau, a três quilômetros do campo principal. Aí, Merkel deverá pronunciar um discurso.

Na Alemanha, país que fez da memória da "shoah" (o holocausto) o centro da sua identidade no pós-guerra, as autoridades observam com preocupação o avanço de atos antissemitas em várias partes do país.

Em outubro, um atentado frustrado contra uma sinagoga de Halle (leste do país) deixou o país em estado de choque. O autor, que conseguiu matar duas pessoas na rua, é um jovem que aderiu às teorias da conspiração que negam a existência de campos de extermínio nazis, durante a Segunda Guerra Mundial.

O partido de extrema-direita alemão AfD, que conseguiu lugares no parlamento alemão nas legislativas de há dois anos, defende o fim da cultura do arrependimento. Alguns dos seus membros minimizam ou relativizam os crimes contra a humanidade cometidos pelo regime nazi.

“Não se calem, façam algo”

Recentemente, uma sobrevivente do campo, Esther Bejarano, de 94 anos, fez um alerta. "Os meus pais e a minha irmã foram assassinados [em Auschwitz]. Hoje temos que dizer às pessoas: 'não se calem, façam algo'".

"Sim, tenho medo de que [a história] se repita", completou em entrevista à revista alemã Der Spiegel.

Crianças sobreviventes de Auschwitz, resgatadas pelo Exército da União Soviética, algumas delas identificadas pelo Museu do Holocausto, EUA: 'Tomasz Szwarz; Alicja Gruenbaum; Solomon Rozalin; Gita Sztrauss; Wiera Sadler; Marta Wiess; Boro Eksztein; Josef Rozenwaser; Rafael Szlezinger; Gabriel Nejman; Gugiel Appelbaum; Mark Berkowitz (um gêmeo); Pesa Balter; Rut Muszkies (depois Webber); Miriam Friedman; e as gêmeas Miriam Mozes e Eva Mozes, usando gorros tricotados
Crianças sobreviventes de Auschwitz. Arquivo estatal de Belarus / Museu do Holocausto

Ao longo dos seus 14 anos no poder, a chanceler alemã fez vários gestos simbólicos semelhantes, tendo ido a outros campos semelhantes, como os de Ravensbrück, Dachau e Buchenwald. Também compareceu cinco vezes junto ao Monumento do Holocausto de Yad Vashem, em Jerusalém.

Em março de 2008 Merkel protagonizou um momento histórico, ao tornar-se a primeira chefe de Governo da Alemanha a discursar na Knesset, o parlamento de Israel. Durante a intervenção, que começou com a chanceler a falar em hebraico, reiterou a "vergonha" que marca os alemães pelo sucedido.

Em Berlim, as referências à barbárie nazis estão um pouco por todo o lado, desde as estelas de pedra no imenso "Memorial aos Judeus Mortos da Europa" até aos cartazes, colocados em zonas residenciais, que recordam as leis contra os judeus, promulgadas nas décadas de 30 e 40 do século passado – uma dessas leis dizia que "os médicos judeus não devem mais exercer a profissão".

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