O escritor angolano Luandino Vieira, que recusou em 2006 receber o Prémio Camões alegando "razões pessoais e íntimas", explicou hoje, no Algarve, que não aceitou a recompensa por ter estado 30 anos sem escrever e não gostar de dinheiro.

"Quando me vêm atribuir o prémio eu estava há 30 anos sem escrever um livro e essa minha escolha tem um preço… Considerei que era uma injustiça para com os colegas que trabalharam e se esforçaram ao longo desses anos", admitiu Luandino Vieira, à margem da cerimónia de apresentação da sua mais recente obra, "O Livro dos Guerrilheiros", uma iniciativa que decorreu na Biblioteca Municipal de Loulé.

Na altura e segundo uma nota do Ministério da Cultura, o escritor Luandino Vieira justificou a decisão de não aceitar o maior galardão literário da língua portuguesa evocando "razões pessoas, íntimas" mas, esta noite, em Loulé, depois de questionado pela plateia, concretizou que a sua recusa estava também relacionada com o facto de "não gostar de dinheiro".

O escritor angolano contou que a sua homenagem a Luís Vaz de Camões é feita todos os anos, dia 10 de Junho, quando, num acto simbólico, convida o autor de "Os Lusíadas para almoçar num restaurante.

"O Livro dos Guerrilheiros" centra-se em Angola e no povo angolano durante o quadro da libertação daquele país - entre 1961 e 1974 - e conta a história de meia dúzia de guerrilheiros de uma primeira coluna, numa acção de recuo e em que um desses homens é julgado pelos seus pares e condenado à morte por enforcamento, refere o escritor.

Luandino Vieira, 74 anos, que participou no movimento de libertação nacional e contribuiu para o nascimento da República Popular de Angola, acrescentou que este livro é baseado tanto em "histórias vividas por ele, como histórias que lhe foram contadas" mas sublinhou que é na "imaginação que tudo se resolve".

"O livro foi escrito mergulhando nas memórias", afirmou, adiantando que muitas das suas influências vêm de Camões, Homero mas também da sétima e da nona artes, do Cinema e da Banda Desenhada, respectivamente. O autor admite que gostou muito destes textos.

"No final de os escrever acordei de mim próprio, porque antes de os escrever adormeci em mim próprio", disse. Aos leitores, Luandino confessa que os seus livros não devem ser de fácil leitura e, por isso, recomenda que sejam lidos devagar:

"Um parágrafo, uma linha por noite, como quando se lêem versículos da Bíblia". O "Livro dos Guerrilheiro é o segundo de uma espécie de trilogia intitulada "Rios Velhos e Guerrilheiros" e cujo primeira obra foi publicada em 2006 e teve o título de "Livro dos Rios.

A terceira obra, caso seja concretizada, terá o título de "Ela e os Velhos", uma homenagem à mulher angolana durante a luta de libertação do povo angolano mas, para já, Luandino Viera explica que embora saiba o que escrever por ter o material, ainda lhe falta descobrir "o como".

"Talvez descubra por anunciação. Talvez sonhe com a forma", lança, com alguma melancolia. Editado pela Caminho, o livro de narrativas distingue-se pela forma como são contadas as histórias, ora se encontrando ritmos que recordam a poesia de Camões ou de Homero mas onde também se pode perceber algumas semelhanças com a "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto no tom de abertura da obra.

José Luandino Vieira nasceu na Lagoa do Furadouro (Portugal) em 4 de Maio de 1935 mas passou toda a infância e juventude em Luanda, onde frequentou e terminou o ensino secundário.

Esteve mais de uma década preso durante o regime salazarista, passando oito anos no Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde). "A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens Guerra para Crianças" ou "A vida verdadeira de Domingos Xavier" são outras das obras do escritor Luandino Vieira.

Lusa

 

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