Em maio de 2018, o Governo de Pretória chamou o seu embaixador em Tel Aviv, Sisa Ngombane, de volta à África do Sul por um período indefinido para protestar contra a escalada de violência na Faixa de Gaza.

Quase um ano depois, a ministra sul-africana dos Negócios Estrangeiros, Lindiwe Sisulu, anunciou esta semana que a decisão é definitiva, seguindo as orientações do Congresso Nacional Africano (ANC), que há 16 meses decidiu reduzir a embaixada em Israel a um gabinete de ligação.

O Presidente Cyril Ramaphosa justificou a decisão como uma reação à "violação dos direitos do povo palestiniano" e à "falta de empenho de Israel pela paz".

Embora não considerem a decisão surpreendente, observadores políticos questionam-se acerca do impacto da medida nas relações diplomáticas entre os dois países, a longo prazo.

Anúncio em véspera de eleições

O anúncio da chefe da diplomacia sul-africana foi feito apenas dois dias antes das eleições legislativas desta terça-feira (09.04) em Israel.

Com quase 100 por cento dos votos apurados, os resultados parciais mostram o partido Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, à frente do seu principal adversário nas eleições, Benny Gantz, do partido centrista Azul e Branco.

Tanto Netanyahu como Benny Gantz reivindicaram a vitória, horas após o encerramento das urnas. O novo Governo israelita apenas deverá entrar em funções dentro de várias semanas, após um período de consultas e de procedimentos. No dia 17 de abril, a comissão eleitoral deverá publicar os resultados preliminares após a contagem da maioria de votos.

As relações diplomáticas com os países africanos têm estado no radar de Israel desde 2016. Com a África do Sul, no entanto, as relações permanecem tensas.

Além do anúncio da saída permanente do embaixador sul-africano de Tel Aviv, a ministra dos Negócios Estrangeiros sugeriu que a retirada do embaixador israelita da África do Sul poderá ser o próximo passo.

Para Benji Shulman, diretor da organização Fórum África do Sul - Israel, esta decisão faz pouco sentido "Não achamos que será útil o Governo fazer isso porque não ajudaria [a África do Sul] a desempenhar um papel construtivo no conflito no Médio Oriente".

As declarações da ministra apenas aquecem desnecessariamente o ambiente na África do Sul, diz Shulman.

"Os judeus na África do Sul têm uma boa vida, o país tem leis anti-semitas fortes e os nossos direitos culturais estão protegidos."

O especialista receia que a degradação das relações diplomáticas possa reforçar as atitudes anti-sionistas e conduzir ao anti-semitismo contra os judeus sul-africanos.

Uma manobra eleitoral?

Shulman também não exclui que a atual política da África do Sul em relação a Israel possa ser uma manobra de campanha eleitoral para as presidenciais de 8 de Maio.

O Congresso Nacional Africano (ANC) sofreu grandes perdas nas últimas eleições e poderá aproveitar qualquer oportunidade para conseguir votos, suspeita Shulman.

O cientista político sul-africano Ralph Mathekga tem uma visão semelhante: "Os partidos políticos sabem como usar as ideias populares em seu benefício em tempos como este. Pergunto-me se as conversações serão retomadas após as eleições”.

A África do Sul não pode ignorar o Estado de Israel, acrescenta Mathekga, referindo-se à cooperação económica de longa data entre os dois países. "Não importa como, eles provavelmente terão que estabelecer algum tipo de relação bilateral.”

Naeem Jeenah, diretor-executivo do think tank Afro-Middle East Center de Joanesburgo, vê a situação de forma diferente: "Negociamos mais com um Estado desolado como o Zimbabué do que com Israel e todas as importações de Israel também podem ser obtidas noutros países.”

Ligações históricas

Para Jeenah, é evidente a razão pela qual a África do Sul está a cortar as suas relações diplomáticas com Israel: "Eles argumentam que há uma série de leis e instrumentos internacionais que deveriam levar Israel a obedecer às leis internacionais. Israel não fez isso e são necessários esforços mais fortes para forçar Israel a obedecer a estas leis".

O ANC tem historicamente laços estreitos com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). A amizade remonta à fundação da OLP em 1964.

Após o fim do Apartheid em 1994, a África do Sul procurou um papel de mediador entre os dois campos políticos no conflito do Médio Oriente, explica Jeenah.

"A África do Sul tem agora a sensação de que Israel usou isso para estabelecer relações económicas”, conclui, considerando que o Governo sul-africano pretende agora persuadir Israel a cumprir os acordos internacionais.

No entanto, é questionável se Israel se deixará impressionar.

Nas vésperas das eleições, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prometeu aos seus apoiantes que anexaria assentamentos israelitas na Cisjordânia no caso de uma reeleição.

O anúncio também foi alvo de críticas por parte dos políticos alemães.

por:content_author: Martina Schwikowski, cvt

 

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