Bastante emocionada, Victorina disse que gostaria de poder dar voz a todos os imigrantes que vivem de na condição de clandestinos no país, mas que não têm coragem para se pronunciar sobre a sua dura realidade.

"Se eu pudesse falar com ele, dir-lhe-ia que queremos uma reforma da imigração para nós, os imigrados que estamos aqui. Somos 12 milhões e viemos trabalhar, lutar. Não viemos invadir este país", disse à agência de notícias AFP.

"Não falo apenas por mim, falo por todos os outros. E tenho fé. Vão ouvir-nos", acrescenta, com a voz embargada pela emoção.

"Eu também tenho medo que os serviços de imigração possam chegar, medo de que me expulsem, mas agora não. Agora, tenho esta confiança, porque estão a ouvir-me", afirmou.

Depois de chegar aos Estados Unidos de forma ilegal em 1999, Victorina, nascida no Guatemala, deu um salto de coragem em dezembro passado. Estava a trabalhar há cinco anos num clube de golfe do qual Trump é dono, em Bedminster, em Nova Jersey, quando decidiu contar a sua história ao jornal The New York Times. Victorina acabou por deixar o emprego, e vários funcionários, na mesma condição, foram demitidos.

O que levou esta mulher de 46 anos a finalmente falar, apesar dos riscos?

"Cansei-me dos insultos, das agressões, das inúmeras humilhações. É doloroso que te digam que és um imigrado que não sabe nada, que aqui tu não podes reclamar, senão chamam os serviços de imigração", relembra sobre os seus antigos empregadores.

Victorina não sabe se Donald Trump, o patrão para quem fazia as camas, limpava os apartamentos e, às vezes, ganhava generosas gorjetas, estava a par destes factos.

"Mas um dia eu disse a mim: 'chega, não aguento mais'", acrescentou, enquanto a congressista democrata Bonnie Watson Coleman a segurava pela mão, no seu gabinete no Congresso dos EUA.

"Hipocrisia"

O campo de golfe de Donald Trump situa-se na circunscrição de Nova Jersey, representada no Congresso, precisamente, por Bonnie Watson. A democrata decidiu convidar Victorina Morales para assistir, com ela, ao discurso do atual presidente sobre o Estado da União.

"Para mim, Morales é o rosto da imigração e dos indivíduos em situação irregular neste país, que trabalham duro, que querem uma vida melhor para sua família, que fugiram da violência", explica a congressista à AFP.

"É com isto que a imigração se parece, não com o que o presidente dos Estados Unidos tenta pintar, diabolizando-os, desumanizando-os", acrescentou.

"Quis aproveitar essa oportunidade para demonstrar a hipocrisia do presidente", que quer construir um muro na fronteira com o México para conter a imigração clandestina, isto enquanto o empresário Donald Trump não tinha problemas em empregar pessoas que não têm todos seus documentos", apontou.

O clube de golfe em causa está ligado à Trump Organization, mas esta diz desconhecer a situação irregular dos funcionários em causa.

Entretanto, a congressista democrata garantiu que Victorina Morales não corre o risco de ser expulsa dos EUA, pois apresentou um pedido de asilo. Além disso, todos os funcionários do clube de golfe, que estão em situação ilegal no país, são "testemunhas materiais" contra a Trump Organization, isto enquanto os democratas exigem uma investigação dos factos.

Para Bonnie Watson, se os serviços de imigração tentarem expulsar a cidadã guatemalteca, será uma medida configurada como "represália".

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