Um membro do Comité de Ética da Saúde na Guiné-Bissau, Mouhammed Ahmed, explicou esta terça-feira à agência de notícias Lusa que os testes com a vacina da poliomielite servem para perceber se esta aumenta a imunidade em pessoas infetadas com a COVID-19.

Secretário permanente do Comité de Ética, Ahmed falou à Lusa após a polémica instalada no país por causa de um estudo com a utilização da vacina contra a poliomielite que será realizado pelo projeto de Saúde de Bandim.

O estudo vai englobar 3.400 cidadãos guineenses e, segundo o secretário do Comité de Ética, visará determinar se a vacina contra a poliomielite tem propriedades ou não para aumentar a imunidade em pessoas em caso de contaminação com a COVID-19.

"Polémica desnecessária"

Vários ativistas sociais e médicos guineenses insurgiram-se contra o estudo, frisando estar a ser feito sem que os padrões internacionais estejam respeitados, nomeadamente a comunicação pública prévia.

Para Mouhammed Ahmed, esta "é uma polémica desnecessária", mas que não ocorre com outros ensaios clínicos, até recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na busca de tratamentos contra a COVID-19.

"Não estamos a falar de administrar a vacina da poliomielite em pessoas para evitar que apanhem o vírus da COVID-19, não é nada disso, nem estamos a falar de pessoas que já tenham sido infetadas. É só saber se uma pessoa que tome a vacina terá a imunidade reforçada ou não em caso de ser acometida pela covid-19", assinalou Ahmed.

O responsável do Comité de Ética da Saúde, entidade que deu o aval para a realização do estudo, disse não compreender que as mesmas vozes não se levantem contra o uso da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19 na Guiné-Bissau.

Mouhammed Ahmed lembra que a própria OMS não tem certeza sobre se aquele fármaco trata de forma eficaz a COVID-19.

Segundo o responsável, a vacina contra a poliomielite, criada nos anos 1950, após passar por toda a vigilância farmacológica e aplicada em milhões de pessoas sem qualquer efeito colateral, é administrada em crianças na Guiné-Bissau desde os anos 1990.

Financiamento

O projeto de Saúde de Bandim pediu autorização e o Comité de Ética anuiu para que fossem utilizadas 1.700 doses de vacinas em outras tantas pessoas maiores de 50 anos para, dentro de seis meses, analisar o seu nível de imunidade perante a infeção da covid-19, notou Mouhammed Ahmed.

Um outro grupo de 1.700 pessoas será englobado no estudo, mas sem receber qualquer vacina para depois comparar o seu nível de imunidade, precisou Ahmed, destacando que ninguém participará no estudo sem ter dado consentimento.

A vacina contra a poliomielite é considerada como uma de efeito não específico. Já foi utilizada na luta contra bactérias e vírus em vários países do mundo "com bons resultados", daí ser a aposta do projeto de Saúde de Bandim, disse.

O secretário do Comité de Ética da Saúde guineense assinalou que não é a primeira vez que o projeto de Saúde de Bandim realiza um estudo do género e nem será a última, recorrendo às pessoas dos bairros de Bandim, Belém, Cuntum e Mindará, todos dos subúrbios de Bissau.

Mouhammed Ahmed aproveitou ainda para desmentir alegações de que o estudo estaria a ser conduzido de forma secreta e por um consórcio de cientistas americanos e dinamarqueses.

Defendeu que é requerida a comunicação pública só em casos de ações de massa e que o estudo é financiado inteiramente pelo projeto de Saúde de Bandim.

"Não existe consórcio nenhum. É uma iniciativa do projeto de Saúde de Bandim que é financiado pelo Governo dinamarquês ou através do fundador do projeto, o professor Piter Aby, dinamarquês", explicou Mouhammed Ahmed.

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