O antigo militante do MPLA José Reis considerou hoje que o alegado golpe de Estado de 27 de maio de 1977 em Angola foi “um grande ajuste de contas” político, que dizimou a juventude pensante comunista angolana.

No sábado cumprem-se 40 anos sobre o 27 de maio de 1977, descrito como uma tentativa de golpe de Estado por "fracionistas" do próprio Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), então já no poder do país recém-independente, contra o Presidente Agostinho Neto e "bureau político" do partido.

Segundo vários relatos, milhares terão morrido na resposta do regime angolano, nomeadamente os dirigentes Nito Alves, então ministro da Administração Interna, José Van-Dúnem, e a sua mulher, Sita Valles.

A Amnistia Internacional estimou em cerca de 30 mil as vítimas mortais na repressão que se seguiu contra os "fracionistas" ou "Nitistas", como eram conhecidos então.

Em maio de 1977, o português José Reis era um militante com uma posição de destaque no MPLA. Poucos dias depois do “golpe” foi detido pelo regime angolano, torturado e apenas libertado dois anos e meio depois.

“A 27 de maio não foram presos só os comunistas. Foram presos todos aqueles com quem era preciso ajustar contas do passado. Com a multiplicidade de etnias [em Angola], aquilo correu muito mal”, recordou à Lusa.

Foi neste “braseiro”, disse, “que se saldou tudo: mataram-se os comunistas e ajustaram-se as contas do passado”.

José Reis recorda que meses antes do “golpe” dos “Nitistas”, em Setembro de 1976, o Comité Central do MPLA tinha decidido em reunião magna avançar para a criação de um partido comunista e encaminhar Angola para o socialismo.

“Foi o próprio Agostinho Neto quem nos disse, nessa reunião plenária, que tínhamos que nos empenhar na reconstrução nacional, de modo a criar as bases para o socialismo e criar o seu dinamizador lógico, um partido da classe operária”, lembrou.

Na altura ficou agendado para Dezembro de 1977 um congresso para “consagrar a existência de um partido da classe operária, um partido comunista” angolano.

“E, de facto, isso aconteceu. Eles transformaram o Movimento Popular da Libertação de Angola (MPLA) num partido do trabalho, dos trabalhadores, num partido comunista, um partido marxista-leninista. Mas, entretanto, tinham matado os comunistas todos [no golpe de 27 de maio]”, observou.

José Reis recorda-se ainda da frase de Agostinho Neto no congresso em que a designação “Partido do Trabalho” foi acrescentada ao nome da formação, passando assim a MPLA–PT.

“Agostinho Neto, ao lado de um busto de Lenine que estava na sala, declara: ‘sob o olhar silencioso de Lenine nós criamos o Partido do Trabalho’. Quer dizer: os comunistas foram todos encostados à parede, outros foram postos em campos de concentração, onde passaram longos anos a penar. E o tal partido comunista [angolano] foi feito não sei com que comunistas", lamentou o antigo militante.

O sobrevivente do “golpe” e da repressão que se seguiu considerou ainda que é este tipo de partidos - “que de comunistas não têm nada, mas que se intitulam como tal” - que leva hoje em dia as pessoas a terem “tanta desconfiança do comunismo”.

Lusa

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