A edificação do monumento será o culminar da implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos angolano, que foi hoje apresentado em Luanda.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da Fundação 27 de maio, Silva Mateus, disse que já manifestou a recusa à Comissão para a Implementação do plano, coordenada pelo ministro da Justiça e dos Direitos Humanos de Angola, Francisco Queiroz.
“Temos uma certa apreensão, porque parece-nos que o Estado quer construir um monumento único para todas as vítimas, o que nós já dissemos que não devia ser assim e não aceitamos, mas é uma questão a discutir”, referiu.
Silva Mateus disse que este plano é fruto de pressões internas e externas, conduzidas pelos sobreviventes do 27 de maio de 1977, data considerada em Angola como uma das mais sangrentas e, até 2018, considerada tabu.
“Devemos lembrar que há um processo na ONU e o Governo de Angola, por duas vezes, na Comissão dos Direitos Humanos, foi questionado sobre o processo do 27 de maio. E podemos dizer mesmo que foi uma espécie de pressão, não só interna como externa, para a resolução, não só dos problemas atinentes à guerra, mas também em especial as questões do 27 de maio”, referiu.
O sobrevivente do 27 de maio sublinhou ainda que o Despacho presidencial que criou a comissão de implementação “fala dos conflitos, com especial atenção à questão da tentativa de golpe de Estado”.
Segundo Silva Mateus, há 18 anos que a fundação se debate sobre este problema do 27 de maio e no conselho consultivo alargado que realizou este ano, fora recompiladas as propostas recolhidas por todo o país, para a resolução do conflito de 27 de maio.
Estas propostas foram já entregues à comissão que hoje deu início ao plano, prosseguiu Silva Mateus, destacando entre elas o debate nacional, o enterro às vitimas, o komba e a construção do monumento.
Entretanto, o presidente da fundação chama atenção para aspetos culturais que devem ser acautelados, no sentido de que o processo vingue.
“Quando se fala do komba , é um ato que dá por terminado um óbito, para dar por terminado o óbito é preciso enterrar o morto, se o morto não está enterrado não vamos fazer o komba, já discutimos isso com o ministro, mas é uma questão que está em aberto e vamos continuar a discutir até encontramos o consenso nacional para resolvermos esse problema”, frisou.
De acordo com Silva Mateus, há algumas questões que não podem ser resolvidas sem que antes se resolvam outras, designadamente a existência de cadáveres para haver um monumento.
Questionado sobre a facilidade passados vários anos do cumprimento destas preocupações, Silva Mateus disse não ver dificuldades, considerando que o processo “vai conhecer um desfecho salutar”.
“Nós falamos em 80 mil homens, que morreram no 27 de maio, mas o Governo especificamente fala em 11 mil, que foram julgados, condenados e fuzilados. Ora, se foram fuzilados é porque os seus restos mortais estão guardados em algum sítio e nós conhecemos onde os seus restos mortais estão guardados. Os comandantes estão ali no Museu das Forças Armadas, na Fortaleza de São Miguel, (…) conhecemos os sítios, só que o regime anterior não quis aceitar”, referiu.
Na sua intervenção, o ministro da Justiça e dos Direitos humanos angolano disse que no dia da inauguração do monumento, será marcado “o varrer das cinzas do passado e o acender de um fogo novo” nos corações dos angolanos.
“O fogo do perdão e da paz de espírito, dando expressão cultural à nossa tradição, com o sentir profundo de um komba nacional”, disse.
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