Todavia, a versão dos militares, que evocam apenas "cinco vítimas civis", provocou protestos nas redes sociais.

Na passada sexta-feira (14 de fevereiro), pouco antes do amanhecer, entre 40 a 50 combatentes com uniforme do exército camaronês, assim como alguns mascarados, de acordo com testemunhos reunidos por agentes humanitários contactados pela agência AFP, atacaram o bairro de Ngarbuh, na aldeia de Ntumbo, atirando a matar. Em seguida, atearam fogo ao povoado e às suas vítimas.

No domingo (16 de fevereiro), um representante da ONU disse à AFP que 22 civis, incluindo 14 crianças, uma mulher grávida e duas mulheres que traziam bebés, foram mortos por "homens armados".

A oposição, assim como muitas personalidades e ONGs de direitos humanos, acusaram o exército. Alguns internautas publicaram fotos de crianças com corpos queimados ou mutilados. Essas fotos, no entanto, não puderam ser autenticadas como verdadeiras pela AFP.

"Foi simplesmente um acidente infeliz, uma consequência colateral das operações de segurança na região", declarou hoje o porta-voz do exército dos Camarões, o coronel Cyrille Atonfack Guemo.

Segundo o oficial militar, quatro soldados e dois polícias que faziam uma operação de "reconhecimento noturno a pé", perto de uma casa "transformada em campo fortificado", foram alvo de "tiros". No final, "sete terroristas" foram mortos durante a operação, relatou o porta-voz.

"Os combates continuaram até à explosão de vários contentores de combustível, seguido por um incêndio violento que atingiu algumas casas vizinhas", acrescentou o coronel Atonfack. "Esse incêndio matou cinco pessoas, incluindo uma mulher e os seus quatro filhos", afirmou.

A questão é que esta versão é contestada por um trabalhador humanitário, que falou sob condição de anonimato à AFP. De acordo com o mesmo, os soldados do exército “atiraram sobre pessoas e queimaram vítimas”, pelo que os “seus corpos estão em péssimas condições".

"Pessoas telefonaram-nos e contaram que os soldados chegaram e arrombaram as portas, mataram a tiro os que estavam dentro e incendiaram as casas", disse ainda à AFP Louis Panlanjo, morador e membro de uma ONG local. Cerca de 800 pessoas "foram buscar refúgio no centro da cidade", acrescentou.

Outras fontes apontam para um número muito maior de mortos. O advogado e ativista de direitos humanos Agbor Felix Nkongho fala em 32 civis mortos. Um morador, que também pediu para não ser identificado, disse que 35 corpos foram encontrados e acusou o exército, em entrevista por telefone à AFP.

Fortemente criticado pelo seu silêncio, o governo dos Camarões, sedeado na capital Yaoundé, finalmente reagiu à tragédia. "Demorámos todo o fim-de-semana a investigar, razão pela qual não reagimos até hoje", alegou o coronel Atonfack.

Há já vários anos, que o exército camaronês é acusado por ONGs internacionais de cometer abusos contra civis nas duas regiões de língua inglesa do país, bem como no extremo norte do território, onde os soldados enfrentam o grupo jihadista Boko Haram.

Um sangrento conflito entre as forças de segurança e grupos armados separatistas de língua inglesa deixou um rasto de três mil e 700 mil deslocados em três anos, nas regiões noroeste e sudoeste.

Nesta segunda-feira, o julgamento de sete soldados acusados de executar a sangue-frio duas mulheres e os seus bebés, em 2015, adiado várias vezes nos últimos meses, foi retomado em Yaoundé. À época dos assassinatos, o governo argumentou que eram "notícias falsas", antes de se retratar e prender os sete soldados acusados.

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