O estudo, publicado recentemente na revista científica Frontiers in Ecology and Environment, foi conduzido por uma equipa de investigadores europeus liderada pela bióloga portuguesa Clara Grilo, que trabalha no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Cesam) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O trabalho, que, de acordo com os seus autores, poderá ser relevante para o planeamento da construção de novas estradas e a mitigação dos seus efeitos na biodiversidade, sugere que as espécies mais atropeladas por viaturas não são as potencialmente mais vulneráveis ao impacto das estradas.

Em declarações à Lusa, a investigadora Clara Grilo disse que o melro e o ouriço-cacheiro morrem mais atropelados do que os morcegos ou as águias, uma vez que são espécies “mais comuns e abundantes” e aproximam-se das estradas.

Contudo, os morcegos e as águias, apesar de terem uma “taxa de atropelamento mais baixa”, são espécies “potencialmente mais vulneráveis”, pois apresentam uma “taxa de reprodução baixa”, possuem “menos capacidade para compensar a mortalidade adicional”, sustentou a bióloga.

Segundo os autores do estudo, “as estradas e o tráfego podem dar o empurrão final para a extinção de espécies já ameaçadas por outros fatores”, mas também representar ”o começo da trajetória para a extinção de espécies relativamente comuns”.

Para estimar a mortalidade de aves e mamíferos nas estradas europeias, incluindo portuguesas, a equipa de Clara Grilo calculou o número de espécimes mortos anualmente por quilómetro de estrada para cada espécie de ave ou mamífero.

Como ponto de partida, compilou dados de 90 estudos com registos de atropelamentos de espécies em 24 países europeus.

A partir desta informação, foram calculadas taxas de atropelamento de 140 espécies de aves e 75 espécies de mamíferos.

Posteriormente, os investigadores desenvolveram modelos para estimar o número de atropelamentos para espécies não estudadas e identificar quais as mais vulneráveis aos efeitos do tráfego nas estradas.

No total, a equipa de cientistas fez projeções da mortalidade nas estradas de 423 espécies de aves e 212 espécies de mamíferos, considerando características como massa corporal, densidade populacional, longevidade, dieta alimentar, número de ninhadas e tipo de ‘habitat’.

Das 126 espécies de aves e mamíferos identificadas como vulneráveis, apenas 20 estão classificadas como “ameaçadas” ou “quase ameaçadas” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.

A perdiz e o esquilo são apresentados no estudo como as espécies de ave e mamífero potencialmente mais vulneráveis ao impacto do tráfego automóvel, apesar de estarem classificados como espécies “pouco preocupantes”.

É nas penínsulas Ibérica e Balcânica e na Europa Central que se concentram as espécies de aves mais vulneráveis.

No norte de Espanha, Itália, Áustria e Península Balcânica estão as espécies de mamíferos mais vulneráveis.

Num próximo passo, a equipa de Clara Grilo propõe-se replicar à escala mundial o modelo de projeções da mortalidade de aves e mamíferos feito para as estradas europeias.

No estudo, os autores salientam que são esperados em 2050 mais 25 milhões de quilómetros de estradas construídas no mundo.

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