Cientistas sociais ouvidos pela VOA tem outra visão e discordam mesmo das declarações de Lourenço.

Numa reunião do Comité Central do MPLA na sexta-feira, 29 de Novembro, o Chefe de Estado disse que “esta forma simplista de abordagem” pode “justificar, senão mesmo a legitimar o recurso à violência por parte de quem atravessa, por vezes temporariamente, momentos difíceis da vida, o que acontece em todas as sociedade”.

João Lourenço rejeitou a defesa do princípio de que “ser pobre ou desempregado se é, a partida, um potencial criminoso, um potencial assassino, porque pensar assim é injusto e discriminatório” e deu como exemplos líderes do país, como Agostinho Neto, que “nasceram e cresceram pobres e não se tornaram, por isso, delinquentes ou criminosos”.

O sociólogo e antropólogo Lukombo Nza Tuzola não concorda com a tese de Lourenço e afirma que “para dizer que não existe uma relação entre o crime violento e a crise social tem que nos dizer quem controla e onde têm colocado os jovens desempregados e os trabalhadores despedidos das várias empresas que fecham as suas portas”.

Para Tuzola, “é obvio que os potenciais criminosos são jovens desempregados, trabalhadores despedidos que são objectivamente potenciais bandidos e marginais”

Outro sociólogo, João Sassando explica que “o crime violento que se tem verificado em Luanda nos últimos dias é fruto da situação económica porque um indivíduo que esteja na situação de pobreza extrema, que não tem como conseguir um rendimento vai ter que ir buscar dinheiro em algum lado e o local mais apetecível é o crime”.

Ao contrário da lógica do Presidente da República, aquele especialista entende que não se combate este tipo nem outro de criminalidade

com força policial.

“O crime não se combate com repressão, mas sim com prevenção e prevenção tem a ver com política social que deixe os jovens ocupados”, acrescenta Sassando, que defende a realização de estudos para que não se tomem medidas à toa.

O psicólogo social Carlinhos Zassala entende que a origem da ciminalidade violenta está bem identificada.

“Não podemos dissociar a criminalidade dos problemas sociais, em que a perda dos valores morais é a base para outros delitos como a corrupção, impunidade, mesmo a crise económica, os desvios efectuados pelos

nossos dirigentes”, conclui.

Factos

A criminalidade violenta aumentou nos últimos meses na capital angolana com o registo de 323 homicídios voluntários e 389 violações sexuais.

Os últimos dados do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional (PN) relativos ao primeiro semestre do ano em curso apontam para a ocorrência de um total de 12.617 crimes diversos, o que corresponde a cerca de 70 crimes por dia.

O porta-voz da PN em Luanda, intendente Hermenegildo Brito, indicou que 82 por cento dos homicídios voluntários resultaram da resistência dos assaltantes durante os roubos.

Entre os crimes cometidos durante esse período, destacam-se também 1.345 ofensas corporais e 595 roubos qualificados.

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