"O desaparecimento do Ibraimo Mbaruco enquadra-se no contexto mais amplo das violações dos direitos humanos que têm sido reportadas em certas regiões da província de Cabo Delgado, afetada pelo conflito armado", lê-se numa nota de imprensa divulgada hoje pelo Misa-Moçambique.

Ibraimo Mbaruco, jornalista da Rádio Comunitária de Palma, em Cabo Delgado, desapareceu no dia 07 de abril em circunstâncias por apurar, disseram à Lusa, na ocasião, familiares e uma fonte da rádio.

"Existem elementos bastantes que indiciam não se tratar de um simples desaparecimento, mas sim de um crime de rapto contra o jornalista Ibraimo Mbaruco", salientou a organização.

Segundo o Misa, que enviou uma missão para a capital provincial de Cabo Delegado para investigar o caso, pouco antes do seu desaparecimento, Ibraimo terá enviado uma curta mensagem (SMS) a um dos seus colegas de trabalho, informando que estava "cercado por militares" e o que se passou depois é uma incógnita.

Informações obtidas pelo Misa indicam que o telemóvel de Ibraimo Mbaruco esteve ligado um dia após o seu desaparecimento e a família tentou ligar para o jornalista, mas as chamadas nunca foram atendidas.

"Os dados referentes às chamadas telefónicas efetuadas ao número do Ibraimo Mburuco são suficientes para permitir que as autoridades tenham acesso à sua localização", acrescentou a ONG.

As autoridades moçambicanas têm-se demarcado da eventual detenção do jornalista, reiterando que o caso está sob investigação.

Em declarações hoje à Lusa, o porta-voz da Polícia da República de Moçambique em Cabo Delgado, Augusto Guta, admitiu dificuldades associadas à "complexidade operativa" na região, afetada pela violência armada há mais de dois anos, mas garantiu que o caso está sob investigação.

"A nossa missão é garantir o bem-estar das pessoas. Continuamos a trabalhar para trazer a verdade e apelamos à população honesta para que também nos ajude caso tenha informações", declarou Augusto Guta.

Várias organizações internacionais, incluindo a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e a União Europeia, manifestaram já o seu repúdio com o desaparecimento do jornalista e pediram às autoridades o esclarecimento do caso.

Cabo Delgado, região onde avançam megaprojetos de extração de gás natural, vê-se a braços com ataques de grupos armados classificados como uma ameaça terrorista e que já mataram pelo menos 700 pessoas nos últimos dois anos e meio, provocando uma crise humanitária que afeta 211.000 pessoas.

Em 2019, dois jornalistas locais na região que cobriam o tema, Amade Abubacar e Germano Adriano, foram detidos e maltratados pelas autoridades durante quatro meses, sob acusação de violação de segredos de Estado e incitamento à desordem, num caso contestado pelas Nações Unidas e outras organizações.

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