A corrida por uma vacina e medicamentos contra o novo coronavírus está a impulsionar as pesquisas internacionais – há centenas de estudos a decorrer em todo o mundo e fundos estão a ser concedidos aos cientistas, que estão cada vez mais conectados. A 15 de maio de 2020, a Cytel, um fornecedor de serviços para estudos clínicos, possuía 1.072 estudos para pesquisar a COVID-19 em todo o mundo, mas apenas 31 deles em África. A maioria é realizada na China (342), Estados Unidos (196) e Europa (297).

Mas surgem alternativas ao trabalho dos países que têm maior capacidade financeira para conduzir pesquisas. Por exemplo, no final do mês de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o estudo Solidarity (em português, Solidariedade) para apoiar a luta contra o coronavírus e reunir conhecimento oriundo de vários países.

No início de abril, cientistas de todo o mundo lançaram a Coligação de Pesquisa Clínica da COVID-19, com mais de 70 instituições, cientistas e fundações de 30 países envolvidos. O objetivo é reunir conhecimento internacional e multidisciplinar para apoiar as regiões do mundo estruturalmente mais fracas em termos de pesquisa científica.

"Ignorar África seria negligência"

Segundo Philippe Guérin, um dos idealizadores do projeto e diretor do Observatório de Dados sobre Doenças Infecciosas (IDDO) da Universidade de Oxford, "atualmente, a maioria dos esforços de pesquisa foca-se na redução da taxa de mortalidade de pacientes que já estão numa fase crítica da doença. Porém, nos países com poucos recursos, a capacidade de recuperar esses doentes [em fase avançada] é limitada. Por isso, seria importante descobrir como evitar que os pacientes cheguem ao estado mais crítico", explica Guérin.

Além disso, Helen Rees, também membro do conselho da recém-criada coligação de pesquisa, diz que muitos medicamentos funcionam em várias populações, mas certas vacinas não funcionam igualmente em todas elas. "Isso pode dever-se à propagação de outras doenças ou às condições de nutrição locais, por exemplo". Rees, que é diretora de medicina clínica na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, explicou à DW que "não é preciso testar as substâncias em todos os países e populações. Mas ignorar um continente inteiro como a África seria negligência".

Pesquisas adaptadas às diferentes regiões

Os cientistas afirmam que há necessidades específicas nas diferentes regiões do mundo. Por isso, os métodos de pesquisa deveriam ser adaptados​​ aos sistemas de saúde e grupos populacionais de cada área. Nas regiões mais pobres, os ​​medicamentos, as vacinas ou os meios para diagnósticos deveriam ser acessíveis a toda a população, em vez de estarem sujeitos aos princípios da economia de mercado. E, para não ser deixada totalmente para trás como um local de pesquisa e estudos, África deveria receber apoio e ser rapidamente integrada nas redes de pesquisa globais, defende a coligação de pesquisa clínica.

Especialmente, porque em África existe uma excelente comunidade de pesquisa científica que já desenvolveu terapias e vacinas em áreas como a malária, tuberculose e HIV, diz Rees. De facto, o continente têm cientistas e conhecimento, mas é "limitado pela falta de recursos financeiros, pois a pesquisa é cara", diz Janet Byaruhanga, oficial de saúde sénior do programa de desenvolvimento da União Africana (UA) chamado Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (NEPAD, na sigla em inglês). Byaruhanga explica que lançar um medicamento no mercado é muito caro - e esse é o maior desafio enfrentado pelos países africanos.

Falta de recursos

A falta de recursos não é um problema novo. Há décadas, cientistas africanos lutam contra a escassez de recursos, e as suas investigações frequentemente dependem de doações de países do norte. Os estados membros da União Africana já se tinham comprometido, em 2006, a gastar pelo menos 1% do seu respectivo Produto Interno Bruto (PIB) em investigação e desenvolvimento. Atualmente, a África do Sul tem um gasto com pesquisa de 0,82% do PIB – e é o país líder no continente.

Por causa da COVID-19, entretanto, mais dinheiro pode ser gradualmente mobilizado. A Academia Africana de Ciências (AAS) angariou recentemente junto de governos e outros doadores cerca de 2,5 milhões de euros em fundos adicionais para pesquisas sobre a pandemia.

Além disso, uma parte dos cerca de 15 milhões de euros do fundo de resposta à COVID-19 da União Africana (UA) deve ser direcionado para fins de pesquisa. Se comparados aos 7,4 mil milhões de euros que a União Europeia mobilizou até o momento com o seu programa "Resposta Global", essas somas podem parecer pequenas.

Entretanto, cientistas estão otimistas e esperam que a ajuda não se restrinja aos fundos de emergência. Querem que a experiência da COVID-19 alavanque, a longo prazo, mais investimentos para pesquisas nos países africanos. Segundo Janet Byaruhanga, África poderá sair mais forte desta crise: "Estou muito otimista de que agora estamos a dar passos certos nessa luta contra um inimigo comum".

por: Clarissa Herrmann, tm

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