A guerra civil no Sudão do Sul, que durou anos, está interrompida por enquanto. A pandemia do novo coronavírus parece também ter poupado o Estado: segundo dados divulgados no domingo (03.05), o país registava apenas 46 pessoas infetadas.

O governo de unidade nacional do Presidente Salva Kiir e do vice-Presidente Riek Machar, que está no poder desde 12 de março, reagiu cedo e restringiu a mobilidade da população a fim de evitar que o vírus se espalhasse pelo vasto território do país.

Contudo, as restrições de viagem no Sudão do Sul e no vizinho Sudão levaram também à suspensão do destacamento de três unidades policiais da missão de paz da ONU, a Força Interina de Segurança das Nações Unidas para Abyei (UNISFA).

Embora as relações entre o Sudão e o Sudão do Sul tenham melhorado, Jean-Pierre Lacroix, subsecretário-geral do Departamento de Operações de Paz da ONU, não acredita que, neste momento, possam ser feitos progressos na disputa pela região de Abyei, reclamada por ambos os países.

Consequências políticas graves na RDC

A missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) também teve de alterar a sua rotina de trabalho, relata Benno Müchler, diretor da fundação alemã Konrad Adenauer na RDC, numa entrevista à DW: "Por exemplo, o princípio da rotatividade, que implica a troca do pessoal, foi alargado de três para seis meses".

Desta forma, diz Müchler, pretende-se evitar uma grande movimentação de pessoas, para não correr o risco de o vírus ser trazido para dentro ou levado para fora do país. O trabalho das forças de segurança da MONUSCO também estaria a ser dificultado noutros aspetos: têm de manter distância de segurança durante as suas patrulhas e não só, usar máscaras de proteção e desinfetar regularmente as mãos.

Porém, o responsável da fundação Konrad Adenauer alerta sobretudo para as consequências económicas das medidas. Estas poderiam ser de tal forma devastadoras que consequências políticas graves seriam inevitáveis. Em nações frágeis como a RDC, existe mesmo a ameaça de colapso do Estado, prossegue Müchler: "Se o Congo entrar no caos, em tempos politicamente imprevisíveis, isso poderá ter consequências para toda a região."

Há cerca de 70 grupos rebeldes ativos no leste da RDC. Segundo Müchler, esses grupos poderiam tentar usar a situação atual para conquistar mais territórios ou obter lucros na exploração mineira. Portanto, o que a curto prazo serve para proteger a saúde pode, a longo prazo, sobrecarregar a conjuntura política.

Intensificação de ameaças existentes

Quase todos os Estados africanos fecharam as suas fronteiras, impuseram o recolher obrigatório e proibiram aglomerações para diminuir a velocidade de propagação do coronavírus.

Mas, segundo o Instituto de Estudos de Segurança, são precisamente estas medidas necessárias que podem precipitar uma série de desenvolvimentos indesejáveis. Milhões de cidadãos podem ficar sem meios de subsistência, sem alimentos, e pode haver revoltas populares, terrorismo, as operações de manutenção de paz em curso poderão cessar e a violência de género poderá aumentar.

"A crise sanitária agrava basicamente as ameaças já existentes em África", afirma Paul-Simon Handy, chefe da divisão de Prevenção de Conflitos e Análise de Riscos do Instituto de Estudos de Segurança durante um painel online sobre o tema "Impactos da Covid-19 na Paz e na Segurança em África".

De acordo com Fred Gateretse-Ngoga, chefe da divisão de Prevenção de Conflitos da União Africana, as primeiras consequências já são visíveis: "Estamos a assistir a um aumento dos ataques terroristas no Sahel, no Lago Chade e na Somália."

Mas enquanto as causas do êxodo das populações se mantêm, Cosmas Chanda, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), alerta para as consequências para os já 25 milhões de refugiados no continente.

Preparação para o pós-crise

A Covid-19 torna mais difícil a distribuição de bens e o contacto com pessoas que necessitam de ajuda, descreve Jens Laerke, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), referindo-se à situação dos refugiados.

À DW, o responsável afirma que "as operações são gravemente prejudicadas, especialmente tendo em conta os voos comerciais internacionais que normalmente utilizamos para transportar ajuda e pessoal. Deixou simplesmente de haver voos."

Atualmente, estão a ser criadas rotas alternativas de transporte, diz Laerke. No entanto, isto seria difícil nos países onde há conflitos armados.

Laerke vê outro problema nas muitas pessoas que trabalham no setor informal. "Podem ser levadas a uma pobreza mais profunda e depois precisar de ajuda humanitária durante muito tempo", avalia.

Para evitar isso, seriam necessários grandes esforços e também ajuda financeira. Mas os peritos do painel de discussão "Impactos da Covid-19 na Paz e na Segurança em África" foram unânimes: A situação proporciona também uma oportunidade para o continente se unir mais. Os países africanos já estão a produzir ventiladores mecânicos e vestuário de proteção para atender às necessidades regionais. Para os participantes do painel online, este é um desenvolvimento necessário e uma possível antevisão do que será o panorama multilateral pós-Covid.

por: Clarissa Herrmann, cvt

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