A luta contra a pandemia do novo coronavírus é importante e existe um consenso entre os médicos especialistas sobre isso. No entanto, existem também outras doenças infecciosas muito perigosas que são conhecidas há muito tempo. Não devemos perdê-las de vista na luta contra a Covid-19, caso contrário, o risco de um desastre será ainda maior.

Em África, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) teme que o número de vítimas de malária possa duplicar este ano: de 400 mil para 800 mil. E isto está relacionado com o novo coronavírus, explica Anna Kühne, responsável por vários projetos humanitários dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em África. A médica conta, por exemplo, que medicamentos e redes mosquiteiras não estão a chegar às pessoas afetadas. E isto ainda antes da estação das chuvas.

"Tornou-se um desafio logístico muito maior levar mercadorias e medicamentos aos respectivos países. Isso deve-se às restrições no tráfego aéreo, mas também ao fecho de fronteiras. Devemos estar à espera de dificuldades ainda maiores no futuro para manter os programas médicos. Já conseguimos ver que algumas organizações estão a ser forçadas a reduzir as suas atividades".

Surto de sarampo

A malária é apenas uma das doenças altamente perigosas que estão em ascensão novamente, esclarece a a médica Anna Kühne.

"No nosso projeto na República Centro-Africana, temos mais de 100 crianças hospitalizadas todas as semanas devido a infecções graves de sarampo. No Chade, o sarampo ainda predomina. No Congo, há um enorme surto de sarampo. Muitas campanhas de vacinação contra o sarampo estão atualmente atrasadas devido à pandemia da Covid-19. "

Além disso, existe o medo da fome, causado por uma praga de gafanhotos que afeta o sul de África desde o ano passado. Espera-se uma segunda vaga desses insetos vorazes para breve. O Programa Mundial de Alimentação (WFP/PAM) das Nações Unidas já alertou que mais de 260 milhões de pessoas em África poderiam estar em risco de fome até ao final do ano como resultado disso.

Os preços dos alimentos já estão a subir acentuadamente em muitos países. O confinamento e o fecho de fronteiras estão a piorar a situação porque impedem que as mercadorias cheguem aos mercados e que as pessoas trabalhem. Anna Kühne descreve o que isso significa para o sistema de saúde:

"Nos nossos programas tentamos manter os cuidados médicos para todos os problemas existentes, tanto quanto possível. Mas muitas atividades de organizações internacionais e também de pequenas ONG estão focadas na Covid-19, porque é preciso prepararem-se para isso. O dinheiro está a ser realocado. Muitos programas de rotina estão interrompidos porque não existe estrutura para que esses programas continuem, ao mesmo tempo que se faz a preparação para a Covid-19".

Menos testes para HIV

Dois outros infectantes mortais são o HIV e a tuberculose. Muitas pessoas são portadoras dos dois. Para combatê-los, a organização MSF tem um projeto em eSwatini. Na antiga Suazilândia, cerca de um terço dos adultos tem HIV e também existem muitos casos de tuberculose.

A médica Anna Kühne explica que os programas estão a ser alterados. O apoio domiciliário, que diariamente ajudava pacientes com tuberculose na toma dos medicamentos, passou a ser feito por vídeo.

"Também há tentativas de garantir que os pacientes com HIV e tuberculose possam visitar as instalações médicas com menos frequência. Eles recebem medicamentos para um período de tempo mais longo, o que reduz o risco de exposição [à Covid-19]. Mas também vemos que menos pessoas vêm às instalações para testes de HIV e para iniciar o tratamento. Portanto, só conseguimos oferecer terapêutica de HIV a menos pessoas".

Tuberculose na Europa

Entretanto, Masoud Dara, coordenador da OMS na Europa e na Ásia Central, antevê contratempos sérios nessas regiões. "Muitos progressos foram feitos nos últimos dois anos, principalmente na Europa, que registou o declínio mais rápido da tuberculose - cerca de cinco por cento ao ano. E a mortalidade tem descido a uma taxa de dez por cento ao ano. Podemos perder todo o progresso que foi feito até agora".

Tal como em África, os pacientes devem ficar em casa e não têm agora oportunidade de consultar os seus médicos. Também são aconselhados por videochamada quando é possível.

"Muitas instalações da tuberculose estão a ser usadas para a preparação da Covid-19 porque têm boas medidas de controlo de infecção implementadas”, explica Masoud Dara. "Por outro lado, o atendimento ambulatório, no qual os profissionais de saúde prestam tratamento domiciliário, também é afetado por causa do confinamento".

Escassez de Testes

Outra área em que pode haver escassez é a da testagem. Por exemplo, muitos laboratórios que testavam anteriormente para TBC e HIV agora reservaram a sua capacidade para o teste de Covid-19.

Particularmente perigoso: em alguns países europeus, metade dos pacientes com tuberculose já carregam germes de TBC resistentes a antibióticos. Estes só podem ser claramente identificados por testes genéticos (os chamados testes de PCR). O HIV também já está a ser testado muito raramente. Aproximadamente metade dos pacientes são diagnosticados apenas na fase tardia da infecção pelo HIV e quando a doença da SIDA já começou.

Apesar de todas as dificuldades, Dara vê aqui uma grande oportunidade para que a testagem de patógenos seja mais frequente e sistemática no futuro.

"Isso é um desafio mas também pode ser transformado numa oportunidade, se estivermos a planear racionalmente o uso de equipamento de testagem e de cartuchos para transportar as amostras e os serviços de diagnóstico".

O responsável da OMS espera que a experiência com o novo coronavírus também possa fazer uma grande diferença no atendimento domiciliar.

"A Covid-19 pode ser vista não apenas como uma ameaça, mas também como uma oportunidade para nos focarmos no atendimento centrado nas pessoas. Isso significa menos ênfase no atendimento hospitalar e mais no atendimento ambulatório. Mas para isso são necessárias infraestruturas. É preciso uma equipa que vá às casas das pessoas. É preciso um bom mecanismo de apoio aos pacientes."

Competição de recursos?

Anna Kühne, dos Médicos Sem Fronteiras, também quer olhar para o futuro. "Estamos a tentar continuar os nossos projetos e proteger a equipa e os pacientes o máximo possível da Covid-19, principalmente os grupos mais vulneráveis. Será um grande desafio. Quão grave será a epidemia nos países africanos, não sabemos de momento”.

Kühne defende que, em qualquer caso, é importante que as organizações de ajuda internacional e os doadores não percam de vista as outras doenças perigosas e que não há competição por recursos entre a Covid-19 e o controle de outras doenças como a malária, tuberculose, HIV e sarampo.

"É importante que haja dinheiro extra para apoiar a luta contra a Covid-19. É um perigo real nesses países e não há dúvida de que dinheiro é necessário para isso. Mas não deve vir de outras campanhas. Acreditamos que temos que nos preparar para a Covid-19 e ao mesmo tempo manter o que já alcançamos. Isso certamente inclui o sarampo, que atualmente está a causar grandes surtos em muitos países com muitas mortes. Isso inclui malária e HIV. Não devemos focarmo-nos apenas num e negligenciarmos os outros. Temos que fazer as duas coisas".

por:content_author: Fabian Schmidt, mc

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