Os investigadores do projeto Saúde Bandim ponderam suspender o estudo que visa testar nos guineenses se a vacina oral usada contra a poliomielite reforça a imunidade e pode ajudar pessoas que sejam infetadas com a COVID-19. Devido à forte polémica que o assunto gera na Guiné-Bissau, os investigadores dizem que, se for a vontade do povo, será cancelado o estudo meramente científico, previsto para iniciar no próximo mês.

Contudo, em Bissau, a investigadora guineense Amabélia Rodrigues, coordenadora do estudo, está confiante que tem o aval da população-alvo de testagem. O problema é a opinião pública geral, diz em entrevista exclusiva à DW África.

DW África: Já começaram o estudo no terreno?

Amabélia Rodrigues (AR): O estudo ainda não está a decorrer. O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comité Nacional de Ética e nós estávamos precisamente na fase de preparação para iniciar os trabalhos. O estudo ainda não começou devido a esse debate todo ao redor do estudo, então ainda precisamos de saber se efetivamente será realizado ou não.

DW África: Quando é que estava ou está inicialmente previsto para começar?

AR: Inicialmente o plano era iniciarmos em abril, mas o estudo só foi aprovado em finais de maio e agora provavelmente iniciaremos em julho. Mas ainda tudo depende da evolução da situação.

DW África: Estão a ponderar mesmo não realizar já o estudo devido à polémica?

AR: Se [essa] for a vontade da população, não realizamos. O interesse é científico. Então, se a população achar que não se deve realizar, cancelamos.

DW África: Estão neste momento a ouvir a população sobre essa matéria?

AR: Na nossa área de estudo nós temos um contacto bem direto e bem de perto com a população. E a população da nossa área de estudo não tem [problemas com o estudo], porque eles já conhecem o projeto há mais de 40 anos. O projeto tem intervido nessas zonas. Acho que com a população [alvo] não há problema. Agora a questão é a opinião pública geral. Pelo que soubemos houve muito debate nas redes sociais sobre esse assunto e hoje (24.06), precisamente por isso, nós mais uma vez estivemos numa das rádios para um debate com, digamos, um representante da sociedade civil para esclarecermos todas as dúvidas que eventualmente ainda persistiriam.

DW África: E como seria esse estudo?

AR: O estudo pretende utilizar a vacina oral para a poliomielite para influenciar a gravidade da COVID-19. Portanto, a hipótese é que a vacina do pólio oral administrada às pessoas maiores de 50 anos diminuiria a gravidade da COVID-19. Caso viessem a contrair a Covid-19, diminuiria a gravidade da COVID-19 relativamente ao grupo que não tomou a vacina. Porque nós normalmente passamos pelos trâmites legais. Nós submetemos o processo todo ao Comité Nacional de Ética em Saúde, que é a entidade que normalmente aprova os estudos. Não é a primeira vez que fazemos estudos aqui na Guiné-Bissau e foi sempre esse o caminho.

Normalmente nós não vamos aos media falar desse trabalho. Eu penso que a confusão toda apareceu porque houve aquilo que chamaram de demência que seria a realização desse estudo porque um jornal de São Paulo [Brasil] fez uma entrevista e falou sobre o possível efeito da utilização da vacina contra a pólio para a COVID-19 e mencionaram a Guiné-Bissau. Eu acho que foi a partir daí que iniciou todo esse debate e essa confusão.

DW África: Como é que seriam recrutadas as pessoas para o estudo?

AR: Portanto, nós selecionaríamos aleatoriamente as casas. Nós temos a base de dados e as casas que fossem selecionadas para receber a vacina, e mesmo às outras também, o estudo seria explicado, como habitualmente. E nós temos uma informação que, para além da explicação oral, deixa-se a informação [escrita] para o consentimento, explicando os objetivos, o método que iremos utilizar, explicando os prós e os contras, os benefícios e os riscos, enfim. E solicitando, portanto, o seu consentimento para a participação. Aqueles que aceitarem, então, assinam o termo de consentimento.

por: Braima Darame

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