Um exemplo. O chefe de Estado do Madagáscar, Andry Rajoelina, chegou a elogiar as qualidades curativas de um chá à base de artemísia, uma planta com eficácia cientificamente comprovada contra a malária (embora o chá, em si, não o esteja), mas acabou por dar um passo atrás no que disse, mais tarde, tendo-se fica pelas suas virtudes preventivas, as quais fortaleceriam o sistema imunológico, no seu entender.

Stéphane Ralandison, médico com longos anos de experiência da faculdade de medicina de Toamasina – cidade situada a leste do Madagáscar –, não está com meias-medidas e alerta para os métodos "não muito científicos" em torno deste chá de ervas.

Embora reconheça que algumas substâncias podem "aliviar os sintomas" do coronavírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) faz questão de lembrar que, atualmente, não há "nenhuma evidência" de que possam "prevenir ou curar a doença".

“Todos os que vão à minha casa saem curados"

Na ausência de uma vacina ou até de um tratamento eficaz, oferecido pela medicina ocidental, os curandeiros tradicionais são vistos como uma solução óbvia e prática, e estes, claro, aproveitam a situação para dar a conhecer e vender os seus preparados, aos quais lhes dão propriedades quase milagrosas.

É o caso de Gabriel Nsombla, que divulga as suas ‘poções curativas’ através da rádio, na República Democrática do Congo (RDC). E o que diz ele? "Inalar o vapor de uma mistura de casca de manga, folhas de mamão, gengibre e uma planta cujo nome mantenho em segredo, garante a cura. Todos os que vão à minha casa saem curados", garante.

Ao contrário dos seus colegas chineses, que obtiveram reconhecimento em alguns países ocidentais – embora a eficácia da ‘medicina tradicional’ chinesa esteja longe de ser consensual entre a comunidade científica e gere polémicas no Ocidente –, os chamados médicos tradicionais africanos queixam-se das provocações a que dizem estar muitas vezes sujeitos e de serem ignorados pelas autoridades.

O fitoterapeuta sul-africano Makelani Bantu é um deles, lamentando que o governo do país não se tenha dignado a responder à sua oferta de testar cientificamente a sua ‘culinária’ curativa. "Não temos sequer a oportunidade de falar. De momento não possuem solução contra a COVID-19, poderiam pelo menos testar os nossos tratamentos", enfatizou.

O problema de confundir sintomas iguais com doenças diferentes

Junte-se, a isto, um etnólogo congolês que também pede que se dê uma hipótese a preparados que são só do conhecimento de um povo nativo de uma região da República do Congo. Falamos de Sorel Eta, que, há já um quarto de século, vive entre a tribo de pigmeus Akas, da província de Likouala, no norte do país. No seu entender, "está na hora de associar a busca de soluções” a estes povos nativos e ainda desconhecidos, pois, continua, "eles conhecem os arcanos da floresta, especialmente todas as espécies medicinais que se encontram nela; sempre trataram doenças cujos sintomas se assemelham aos da COVID-19", afirma.

E eis que chegamos ao busílis da questão. O fato de o novo coronavírus ter sintomas semelhantes a outras doenças, como a gripe, ou até a alergias ou um simples resfriado, pode levar à conclusão errónea e perigosa de que pode ser curada da mesma forma que elas.

Comparando com gripe, existem semelhanças, uma vez que ambos afetam o sistema respiratório, além de que os primeiros sintomas também podem ser parecidos. Mas é aí que terminam as semelhanças com a COVID-19, pois este último tem uma letalidade maior e ainda não há qualquer fármaco que atrase a sua propagação. Além disso, a gripe é provocada pelo vírus influenza, do qual existem relatos datados de há até dois mil anos, enquanto a COVID-19 é causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (conhecido como SARS-CoV-2), o qual só foi conhecido pela primeira vez em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan. Em suma, quase nada se sabe sobre o novo coronavírus, o que nos torna muito vulneráveis a ele.

Está explicado porque, até agora, as autoridades de saúde de vários países africanos têm recebido essas promessas e pedidos com cautela e ceticismo.

O porta-voz do ministério da Saúde da África do Sul, Pop Maja, diz "respeitar o papel dos curandeiros tradicionais", mas até certo ponto. "Também sabemos que, de momento, não há tratamento para o novo coronavírus e, todos os dias, recebo entre 10 a 15 telefonemas de pessoas que dizem ter encontrado um."

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