"O combate à corrupção tornou-se numa prioridade para os defensores dos direitos humanos em África porque se combatermos a corrupção, limitamos as perspetivas de saída de dinheiro do continente", disse Deprose Muchena.

O ativista, que hoje participou como orador numa conferência sobre direitos humanos em África organizada pela Amnistia Internacional (AI) Portugal, denunciou a "delapidação" de recursos naturais de que o continente está a ser alvo e que está a "criar austeridade para os pobres e mais riqueza para os ricos".

"Um número significativo de países em África são ricos em recursos naturais. A África do Sul e o Zimbabué têm as maiores reservas de prata, Moçambique tem uma das maiores reservas de gás, Angola produz petróleo, mas as receitas dos recursos naturais não têm expressão nos orçamentos nacionais, na maioria porque a gestão financeira é viciada por transferências ilícitas", sublinhou.

Segundo Muchena, a cada ano mais de 200 mil milhões de dólares (181,1 mil milhões de euros) de recursos financeiros do continente são perdidos para o estrangeiro.

A este valor somam-se, segundo o ativista, as perdas originadas pela combinação de preços de transferência, ou seja, importações muito caras e exportações muito baratas.

Por isso, sustenta Deprose Muchena, é fundamental que os governos trabalhem com investigadores e ativistas de direitos humanos na regulação dos fluxos financeiros "para conter o dinheiro dentro de África" e, dessa forma, apoiar os orçamentos da educação, saúde, habitação e infraestruturas.

O dirigente regional da AI admite, contudo, que muito deste dinheiro sai dos países com a cumplicidade dos governantes africanos.

"Um dos grandes problemas que estamos a combater agora é a captura dos estados pelos grupos de interesses privados, que reduzem esses países a veículos de acumulação primitiva de capitais", afirmou.

"Por isso, a transparência na acumulação e distribuição de capital é tão importante. Os orçamentos nacionais têm de ser mais transparentes", acrescentou.

Deprose Muchena lembrou igualmente os grandes desafios e riscos que enfrentam os defensores dos direitos humanos em África num contexto "cada vez mais sofisticado" de violações.

"Estamos a assistir a uma crescente vigilância 'online', onde 'trolls' são apoiados por governos para intimidar jornalistas, defensores dos direitos humanos ou da liberdade de expressão", apontou, adiantando que a tecnologia está a ser cada vez mais usada para minar o trabalho dos ativistas.

O ativista salientou que “o trabalho de defesa dos direitos humanos não pode ser feito como antes” : “Também precisamos de ser muito mais sofisticados e as nossas análises têm de focar-se nas causas das violações e não apenas nas próprias violações".

Nesse sentido, o responsável pela delegação regional da AI no sul de África, deixou um apelo ao movimento internacional de defesa dos direitos humanos para que ajude África a "refinar as suas ferramentas de trabalho".

Deprose Muchena destacou igualmente a importância da "liberdade após a expressão" no continente, dando como exemplo o caso do jornalista e ativista moçambicano Ericino de Salema, atual diretor do Electoral Institute for Sustainable Democracy in Africa, também presente na conferência, que foi sequestrado e agredido há menos de um ano.

"A liberdade de expressão é importante, mas a liberdade depois da expressão também é muito importante porque o que vemos em alguns países é que aqueles que exercem as suas liberdades são visados, sequestrados durante a noite, agredidos ou mortos", notou.

A conferência sobre os direitos humanos em África integra o conjunto de atividades do II Fórum da Coragem, organizado pela Amnistia Internacional Portugal para homenagear a coragem dos ativistas e defensores de direitos humanos.

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