Antes mesmo de iniciar o seu mandato, a eleição de Lazarus Chakwera à Presidência do Malawi já entrou para a História. Em entrevista à DW, o novo Presidente disse que a sua vitória "não foi surpresa".

O líder da ex-oposição contestou os resultados das eleições levadas a cabo em maio do ano passado e que deram a vitória ao incumbente, Peter Mutharika.

O Tribunal Superior deu-lhe razão. No mês passado, os malauianos voltaram às urnas e elegeram Chakwera por grande maioria. Foi a primeira vez em África que a oposição venceu eleições, após o anulamento por irregularidades de um escrutínio anterior.

DW: Os desenvolvimentos no seu país surpreenderam muita gente. A si também?

Lazarus Chakwera (LC): Nem por isso. O desenvolvimento começou já há algum tempo, e somando todos os acontecimentos chega-se à conclusão de que o Malawi estava pronto para uma mudança. Para mim, não foi surpresa.

DW: Sr. Presidente, perdeu as eleições no ano passado e o vencedor foi ajuramentado. Hoje é o senhor o Presidente. A que atribui o facto?

LC: A uma série de acontecimentos. Não aceitei ter perdido. Recorri à Justiça juntamente com o meu colega que agora é o vice-presidente. Apresentámos testemunhas e argumentos através dos nossos advogados, e o Tribunal Constitucional deu-nos razão. E mesmo quando o Tribunal Supremo confirmou a decisão, participámos em novas eleições. É por isso que hoje sou o Presidente.

DW: Qual é a sua visão para o Malawi? Disse que queria unificar o país. Como pretende persuadir os 42% que não votaram em si?

LC: Quando assumi o cargo saí à conquista da confiança de todos os malauianos, ao dizer que o novo Malawi será bom também para os que não votaram em mim. Acredito que o que temos planeado para a população do Malawi em termos de uma liderança que existe para os servir e unir, uma liderança que vai criar um ambiente em que todos possam prosperar, que vai combater a corrupção e o roubo de fundos públicos, seguindo as regras do Estado de Direito. Acredito que seremos capazes de o fazer.

DW: Um maluiano na capital, Lilongwe, disse-nos, e cito: "Era bom que ele cumprisse dois terços das suas promessas. Não vai conseguir cumprir todas. Mas se o fizer, saberemos que é este o Presidente que sempre quisemos ter. Mas se só fizer promessas, como baixar o preço dos fertilizantes, e não as cumprir, então regressaremos às ruas para o expulsar". Sr. Presidente, o que responde a este cidadão? Afinal, os malauianos esperaram muito tempo por uma mudança.

LC: Correto. Prometemos reduzir o preço de fertilizantes nesta época de plantio, e eles vão ver essa promessa cumprida. Acredito que podemos cumprir as nossas promessas porque eu não sou de falar à toa. Penso que é isso que os malauianos vão ver.

DW: Permita-me realçar que nomeou os advogados que o representaram no processo de fraude eleitoral para os cargos de ministro da Justiça e Procurador-geral do Estado. Isso não é dar emprego aos seus próximos?

LC: Não, não é. Entenda que se trata de profissionais e este país precisa do conselho de profissionais, de pessoas com treino profissional, que sabem que o Presidente vai ter que responder pelas suas ações, que tem que seguir ao pé da letra a Constituição e as regras do Estado de Direito. Não tem nada a ver com o que fizeram. Tem tudo a ver com quem são, porque são pessoas com integridade, capazes de servir os malauianos com integridade e honestidade.

DW: Os cidadãos do Malawi foram repetidas vezes para a rua para o apoiar e o senhor ganhou apoiado numa aliança de nove partidos. Na sua opinião, qual é a importância de uma sociedade civil saudável?

LC: É extremamente importante, porque as pessoas devem ter o direito de exigir os seus direitos. Temos de criar um ambiente em que as pessoas sejam livres de o fazer. Não tenho dúvidas em deixar crescer a influência da sociedade civil, porque todos nós precisamos dela.

DW: Chegou ao poder com o apoio esmagador dos malauianos. Mas também outros líderes africanos assumiram o poder graças a apoio semelhante, mas depois não o largaram mais. O seu caso vai ser diferente? Por outras palavras: não vai tornar-se num ditador?

LC: Tornar-se um ditador tem a ver com o ego de quem talvez acredite que só eu e mais ninguém pode fazer este trabalho. Eu não tenho essa tendência. Mas só o posso provar com a passagem do tempo. Acredito em dizer a verdade ao povo, e em viver essa verdade. Acredito que promessas têm que ser cumpridas, o que significa que temos que ser fiéis à Constituição e não procurar mudá-la em benefício próprio.

DW: Futuramente irá encontrar-se em conferências da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da União Africana com líderes africanos que fazem exatamente o oposto do que acaba de descrever. Qual vai ser a sua mensagem no palco continental?

LC: A minha mensagem é a que temos dado ao mundo. Criem instituições suficientemente fortes para trabalharem de forma independente e elejam Presidentes capazes de cumprir o que prometem. E eu pretendo ser um desses Presidentes.

DW: Permita que eu insiste neste ponto. Há muitas pessoas no continente africano, jovens, como aqueles que o apoiaram no Malawi, que também aguardam por uma mudança. Eles vão vê-lo com outros líderes e talvez esperar que uma nova cara também traga uma nova mensagem. Acha que é também a sua obrigação de falar com os seus colegas, os Presidentes de outros países, sobre uma melhor governação?

LC: Acredito que sim. Nunca tive medo de dizer a verdade aos poderosos, mesmo antes de me tornar Presidente. E sou capaz de dizer a verdade, mesmo sendo Presidente. E tenciono dizer a verdade - com amor e honestidade - aos meus colegas. Acredito que os jovens africanos, que são a maioria dos africanos, merecem muito melhor e diferente do que uma geração de pessoas mais velhas como nós. Acredito que temos de criar um ambiente no qual os direitos dos jovens sejam respeitados e que lhes seja também dada a oportunidade de exigir esses direitos. Acredito que chegou uma nova era para África e nós aqui no Malawi podemos dar esse exemplo.

DW: Há jovens africanos que perderam a fé nos seus políticos e instituições. Acham que participar em eleições não muda nada por causa das fraudes eleitorais. Como encoraja um jovem num país que acredita que não há como vencer a corrupção, que não faz diferença qual o líder que está no poder, que de qualquer maneira não vai escutar os jovens e só se quer agarrar ao poder?

LC: Diria a esse jovens: Não percas a esperança. Só a esperança impede que se caia no desespero, que destrói os fundamentos de tudo o que possa surgir de bom. Creio que os jovens devem ter esperança e olhar para o exemplo que o Malawi deu ao continente e a todo o mundo. A mudança é possível. É possível ter instituições que agem com independência. É possível ter sistemas que protejam os jovens e lhes garantam o futuro que desejam e lhes permitam participar neste processo de mudança para alcançar o futuro que almejam.

por: DW (Deutsche Welle)

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