Depois de novas movimentações da insurgência armada em Cabo Delgado e do choque causado pela divulgação de um vídeo com a execução de uma mulher naquela região, o conflito interno no Norte de Moçambique volta a ser tema de debate na província da Zambézia, para onde fugiram milhares de deslocados nos últimos três anos.

Paulo Frederico, ex-guerrilheiro da RENAMO, o maior partido da oposição, entende que a guerra é causada pela exclusão social e pela falta de partilha de recursos. Para o antigo combatente, a maioria das pessoas no Norte do país foi afastada das suas terras pelas companhias mineradoras sem uma compensação justa.

"[O Governo] fala de inclusão, mas onde está a inclusão? Saibam que a guerra é dos próprios homens de Cabo Delgado, é de duas a três tribos que estão lá, nomeadamente macondes, kimwanes e suaílis naturais de Cabo Delgado, e [o conflito] tem a ver com as riquezas que estão lá", justifica.

Nyusi nega conflito religioso

O Presidente da República, Filipe Nyusi, incentivou, numa visita recente a Quelimane, na orovíncia central da Zambézia, ao empenho dos cidadãos na luta contra a insurgência.

"Queremos convidar a todos moçambicanos a contribuir com o seu saber e inteligência contra esses e outros males que afetam a nossa sociedade", referiu.

"Nós temos estado a afirmar que aqui em Moçambique não existe histórico de conflitos religiosos", frisou.

Muito se tem especulado sobre os ataques no Norte do país, com algumas alas da sociedade a defender que a insurgência armada em Cabo Delgado se deve a movimentações de terroristas islâmicos na região que têm interesses económicos criminosos.

Os relatos de combates em Cabo Delgado e a execução de uma mulher indefesa alegadamente por Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas esta semana suscitaram intensos debates em diferentes locais na província da Zambézia.

"Não é [só] a exclusão social e a pobreza que explicam a insurgência em Cabo Delegado. Temos de associar os fatores históricos, culturais, religiosos, económicos. A mim, particularmente, o que me preocupa é a estratégia que nós estamos a adotar como Governo para lutar contra esta subversão em teoria de guerra", comenta analista político Ricardo Raboco.

"Há relatos preocupantes de tortura envolvendo particularmente a população civil. A continuarmos assim, e a ser verdade, nós vamos perder esta guerra em Cabo Delgado", adverte.

O diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD), organização não-governamental moçambicana, qualificou como barbaridade imagens de vídeo de uma mulher a ser executada por homens com os mesmos uniformes das forças armadas, acusando o Governo de tolerar abusos. "O vídeo (...) é claramente uma situação de barbaridade, de violação dos direitos humanos", afirmou Adriano Nuvunga, em declarações aos jornalistas em Maputo.

Nuvunga assinalou que o caso "é apenas a ponta do iceberg" da violação grosseira de direitos humanos por elementos das forças armadas moçambicanas, recordando que inúmeros episódios de atropelos têm sido referidos em relatórios nacionais e internacionais, nomeadamente no conflito contra insurgentes em Cabo Delgado, norte do país.

O vídeo começou a circular dias depois de a Amnistia Internacional ter pedido às autoridades moçambicanas que investiguem alegados abusos por parte das suas forças em Cabo Delgado, com base noutros vídeos que mostram torturas e vítimas de execuções sumárias.

O ministro do Interior, Amade Miquidade, disse na terça-feira (15.09) que o Governo suspeita haver um núcleo que produz desinformação para denegrir as FDS, servindo assim os interesses dos grupos "terroristas" que atacam a província nortenha e que usam as mesmas fardas que os militares para ações de propaganda e subversão.

Zambézia solidária com os deslocados

O governo da província da Zambézia já se solidarizou com as famílias vítimas de ataques armados e está de braços abertos para receber mais deslocados de Cabo Delgado, enquanto preparam a distribuição de produtos alimentares e locais de abrigo.

"Podem vir para cá havendo condições para vir. O nosso país é uno e indivisível, serve para todos, desde que a ação seja de boa fé", diz o administrador do distrito de Nicoadala, João Nhambessa.

Os confrontos em Cabo Delgado duram há três anos e estão a provocar uma crise humanitária com mais de mil mortos e cerca de 250.000 deslocados internos.

por: Marcelino Mueia (Quelimane)

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