As eleições presidenciais de 2018 no Brasil estão a ser, claramente, muito diferentes das anteriores. Entre as novidades no comportamento dos eleitores, uma tem sido especialmente surpreendente: a enorme diferença que as sondagens apontam nas intenções de voto entre homens e mulheres.

O fosso que se abriu no comportamento destes dois grupos é inédito em eleições presidenciais do país, destaca o politólogo Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dados das eleições de 2010 e 2014, por exemplo, mostram que homens e mulheres votaram em proporções similares nos diferentes candidatos.

Quem catalisa o fenómeno nesta eleição é o candidato presidencial Jair Bolsonaro (PSL), o qual ainda está a recuperar de uma facada sofrida por um opositor no início do mês, apesar de já ter tido alta hospitalar. É ele quem lidera a preferência do eleitorado com 27% das intenções de voto, segundo a mais recente sondagem do Ibope (o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), divulgada na semana passada - uma outra, datada deste fim-de-semana, feita pelo instituto MDA e encomendada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte), dá a Bolsonaro 28,2% das intenções de voto, enquanto Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), alcança 25,2%.

No último sábado, dia 29, manifestantes protestaram no Rio de Janeiro e em São Paulo contra o candidato, instigados pelo movimento #EleNao, organizado por mulheres nas redes sociais. Outros protestos foram registados em mais de 40 cidades do país e em cidades europeias, como Lisboa, Paris e Londres.

Por outro lado, também houve manifestações pelo país em prol do candidato. No Rio de Janeiro, apoiantes de Bolsonaro juntaram-se em Copacabana.

Quando vemos os números por sexo da sondagem do Ibope verifica-se que Bolsonaro tem o apoio de 36% dos homens e 18% das mulheres.

Tal diferença não é vista em nenhuma outra candidatura. Haddad, por exemplo, candidato que aparece em segundo lugar na sondagem do Ibope, com 21%, tem a preferência de 20% dos homens e de 21% das mulheres. O terceiro colocado, Ciro Gomes (PDT), com 12%, pontua 11% junto do eleitorado masculino e 12% no feminino.

“Os números mostram que, se a eleição fosse apenas entre as mulheres, estaria muito mais disputada”, observa Jairo Nicolau.

Os dados do Ibope revelam ainda que o desempenho de Bolsonaro é mais fraco entre as mulheres com menor rendimento (até dois salários mínimos do Brasil) e moradoras na região do Nordeste, indicando que é aí onde está a maior resistência ao antigo capitão do exército. No sentido oposto, é precisamente nestes dois segmentos do eleitorado que Haddad tem melhor resultados.

A resistência feminina a Bolsonaro tem sido fortemente explorada por outras campanhas, como a de Geraldo Alckmin (do Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB) e Marina Silva (do partido Rede Sustentabilidade), especialmente devido às declarações agressivas de Bolsonaro em relação às mulheres e a sua defesa de que as trabalhadoras, por engravidar, devem receber menos que os homens.

Movimento #EleNão foi às ruas este sábado e teve o apoio de celebridades como Madonna

No mês passado, as mulheres que rejeitam Bolsonaro organizaram-se nas redes sociais em torno do movimento #EleNão, e foram elas que convocaram para o dia 29 de Setembro os protestos contra o candidato. A mobilização, que contou com apoio de celebridades internacionais, como a cantora Madonna, agrega mulheres de diferentes visões ideológicas.

Analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil divergem sobre o potencial do movimento para criar impacto na eleição, provocando, por exemplo, uma queda abrupta nas intenções de voto de Bolsonaro. Parte deles, porém, considera que, se a mobilização for grande, pode contribuir para aumentar a rejeição já elevada do militar reformado, dificultando a sua vitória numa provável segunda volta contra Haddad.

Se o duelo final entre o candidato do PSL e do PT se confirmar, a clivagem de género deverá ser determinante para o resultado da eleição, observa Jairo Nicolau. A tendência, caso Bolsonaro vença, é que o apoio masculino seja decisivo. Caso perca, será culpa da forte rejeição feminina. Uma vitória depende de ele conseguir reverter, pelo menos, parte da antipatia entre as mulheres, ressalta o politólogo.

“Esta resistência das mulheres ao Bolsonaro cria uma barreira quase intransponível. É muito difícil, num país em que elas são 53% dos eleitores e comparecem mais às urnas que os homens, que um candidato com alta rejeição feminina vença uma eleição a duas voltas”, acredita.

Jairo Nicolau destaca ainda que a semana passada foi marcada por notícias negativas para Bolsonaro, com a divulgação de que a sua ex-mulher, Ana Cristina Valle, informou há dez anos, durante um processo judicial em que discutiam a guarda do filho, que o candidato teria um património maior que o declarado ao departamento de Justiça Eleitoral e incompatível com os seus rendimentos enquanto deputado federal e militar aposentado.

Ainda na semana anterior, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, Bolsonaro defendeu-se das acusações dizendo que “numa separação é comum ter problemas, é litigiosa, as cotoveladas acontecem de ambas as partes”. “A própria ex-companheira diz claramente que, de sangue quente, fala-se coisas que não existem”, completou o candidato.

“Vejo este movimento [das mulheres] como mais uma peça de uma onda que começou a armar-se na última semana contra ele. É a primeira vez, pelo que eu me lembro, que a sociedade se articula em campanha contra um candidato numa eleição presidencial no Brasil”, nota o cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Já Fabricio Pontin, especialista em direito e relações internacionais pela Universidade LaSalle, do estado de Rio Grande do Sul, mostra-se cético quanto ao impacto do movimento #EleNão na eleição. Embora considere a mobilização importante para aglutinar a oposição ao candidato do PSL, não acredita que a mesmo seja capaz de reverter os votos já conquistados por Bolsonaro – as sondagens mostram um alto nível de convicção entre esses eleitores – ou capturar muitos indecisos para outros concorrentes.

Pontin relembra que houve um movimento semelhante nos Estados Unidos sob a hashtag #resistance (#resistência, em tradução literal), contra a candidatura de Donald Trump, e mesmo assim ele venceu a disputa.

“O eleitor que vota em Bolsonaro, assim como o que votou em Trump, já conhece os seus problemas, mas considera que ele é diferente da classe política”, destaca.

“Pergunto-me quanta gente indecisa vai votar? O número de indecisos já caiu muito nas pesquisas, parece-me que os que até agora não têm candidatonnão vão votar ou vão anular [o voto]”, diz.

Luta nas redes sociais

A movimentação nas redes sociais reforça os sinais de que o género ganhou papel de destaque na eleição brasileira. A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, que tem vindo a monitorizar a actividade dos internautas, mostrou num relatório recente que o movimento #EleNão impulsionou cerca de 1,4 milhão de menções no Twitter entre 12 e 24 de setembro. Por outro lado, a reação a esse movimento realizou no mesmo período 284 mil usos da hashtag #EleSim.

A última monitorização deste organismo, em relação às eleições, mostrou que entre 9 e 15 de setembro houve 8,8 milhões de tuítes com teor político, sendo que metade dos perfis envolvidos nesse debate manifestaram-se contra Bolsonaro. Segundo o levantamento feito, nesse grupo houve “várias publicações com a hashtag #EleNão”.

Mulher sorri com uma placa junto ao topo da cabeça, com os dizeres

Para a socióloga e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, da Universidade Federal de Santa Maria e apoiante do #EleNão, o movimento tem a capacidade de virar votos contra o líder das sondagens. Segundo ela, este movimento de articulação feminina em massa, dentro do processo eleitoral, é inédito e está a trazer muitas mulheres ao debate público pela primeira vez. Por exemplo, o grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” no Facebook reuniu, em menos de três semanas, mais de 3 milhões de pessoas.

“O movimento está muito forte. Há um diálogo direto entre as mulheres: é a eleitora que convence a tia, a avó, uma vizinha a não votar no Bolsonaro”, exemplifica.

Um estudo, realizado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, um projeto ligado à Universidade de São Paulo, também mostra a importância que as questões de género ganharam na última eleição presidencial. Ao todo, os seus investigadores analizaram 115 páginas no Facebook, de grande alcance, que promoveram a candidatura de Bolsonaro durante os 40 primeiros dias de campanha (de 16 de agosto a 25 de setembro), tendo detectado que os três temas que mais geraram partilhas foram os posts antissistema e anti-PT (2 milhões), as publicações com críticas aos média (1,3 milhões) e as mensagens sobre feminismo e mulheres (1,1 milhões).

Estes temas superaram, em muito, as publicações sobre corrupção (338 mil partilhas) e armas (229 mil), por exemplo.

“As questões que envolvem a mulher parecem ser uma obsessão da campanha, já que as mulheres constituem um dos principais grupos demográficos nos quais o candidato [Bolsonaro] tem dificuldade em encontrar adesão”, destaca a investigação.

Um dos seus autores, o filósofo Pablo Ortellado, nota que a discussão sobre a igualdade salarial entre trabalhadoras e trabalhadores foi o tema, relacionado com as mulheres, que mais gerou envolvimento entre os apoiantes de Bolsonaro. “Acredito que mais importante que os protestos deste [último] é o movimento #EleNão, nas redes sociais. O jogo eleitoral deste ano está a acontecer nas redes”, destaca.

Os protestos convocados para as ruas, porém, geram preocupação na campanha de Bolsonaro. O medo é que algum conflito que venha a ocorrer nessas acções possa prejudicar a sua candidatura.

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