A Somália foi colonizada por Reino Unido e Itália a partir da década de 1880 e conquistou a independência a 1 de julho de 1960. A esperança de uma nação próspera, entretanto, foi frustrada rapidamente pelo assassinato do Presidente Abdirashid Ali Shermarke em 1969. O episódio levou ao golpe militar liderado pelo Major-General Jallee Mohamed Siad Barre, que governou o país por mais de duas décadas.

O golpe foi o início de anos de ditadura e sistemas opressivos até que Barre acabou por ser expulso por senhores da guerra e grupos rebeldes de diferentes clãs. A política baseada no tribalismo causou injustiças e revoltas. Grupos tribais sem agendas definidas assumiram o protagonismo político.

"Nesse sentido, a Somália pagou caro. Barre também cometeu um erro estratégico ao tentar adotar o chamado socialismo científico - que é um sistema ateu absolutamente num país que predominantemente muçulmano conservador. O povo rejeitou isso", considera o analista político somali Mohamed Haji Husein Rage.

Fragmentação política

Senhores da guerra e anciãos dos clãs tornaram a Somália num Estado falhado - com centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados em diversos conflitos. Vários governos civis interinos foram instalados de 1991 a 2000 na tentativa de pacificação. O Governo Federal de Transição estabelecido em 2004 controlou a maioria das zonas de conflito no sul quando foi constituída a União dos Tribunais Islâmicos (UTI).

Porém, o braço armado da UTI - chamado de al-Shabab, que significa "A Juventude" em árabe - rebelou-se contra o Governo de transição e seus aliados da União Africana. Em meados de 2012, quando os insurgentes haviam perdido a maior parte do território que tinham conquistado, a Somália conseguiu aprovar uma nova Constituição provisória, tornando-se uma federação.

Ao longo dos anos, a al-Shabab fortaleceu-se, controlou uma pequena parte do país e criou laços internacionais. Com ligações com a al-Qaida, o objetivo do grupo armado e estabelecer um Estado islâmico, com regras ditadas pela sharia.

O ataque mais mortífero do grupo armado ocorreu em 14 de outubro de 2017, quando expldiu dois camiões carregados de explosivos no coração de Mogadíscio, matando 512 pessoas e ferindo mais de 300.

Husein Rage acredita que a estrutura social única do país dificulta a formação de um Estado funcional. É um país com diversos povos nómades divididos em clãs: "Isso não pode andar de mãos dadas com a construção de uma nação moderna. Por isso a Somália não seguiu um caminho semelhante a outras nações africanas como Gana, Tanzânia ou Botswana, que têm pilares fortes e, em cima disso, construíram nações fortes onde as pessoas identificam-se com um país".

Com o apoio da União Africana e de doadores internacionais, a Somália conseguiu construir gradualmente um sistema político. Instituições governamentais foram instaladas numa área fortificada no aeroporto internacional de Mogadíscio.

A capital somali é uma cidade de casas improvisadas e mais de 2,5 milhões de habitantes. A maioria dos habitantes da cidade são na verdade nómadas e camponeses que foram forçados a fugir de conflitos e da fome noutras regiões. Pelo menos 600 mil pessoas são consideradas oficialmente deslocadas internas.

Quase cinco milhões de somalis dependem da ajuda alimentar para sobreviver. As comunidades da diáspora investe na reconstrução do Estado devastado e isso é mais visível nas melhorias feitas na capital.

Regiões separatistas

O fim da ditadura militar permitiu Somalilândia, região no noroeste do país, a declarar independência. Embora não seja reconhecida internacionalmente como um Estado soberano, a Somalilândia tem um sistema político, instituições governamentais, forças de segurança e uma moeda própria. Já a região de Puntland, no nordeste do país – tem autonomia reconhecida internacionalmente.

A 14 de junho, o Presidente Mohamed Abdullahi Mohamed retomou as conversações com o governo separatista da Somalilândia. O encontro no Djibuti contou com a participação do Presidente Mohamed, o líder da Somalilândia Muse Bihi Abdi e o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed - que media as conversações.

Segundo relatórios das Nações Unidas, a al-Shabab intensificou a visibilidade nos últimos meses com mais de mil ataques registados nos primeiros quatro meses de 2020.

Tropas de Estados Unidos, Turquia e União Africana planeia reduzir gradualmente a presença no país. Somente a Missão da União Africana na Somália (AMISOM) emprega 22 mil militares e pretende transferir a responsabilidade da segurança para o Exército Nacional da Somália em formação com a ajuda dos aliados.

Para o jornalista Mohamed Odowa, a retirada da AMISOM pode dar poder às estruturas baseadas nos clãs e proporcionar oportunidade à al-Shabab para explorar as clivagens da cena política do país. "Há cada vez mais dúvidas sobre capacidade do Exército Somali de derrotar o grupo radical al-Shabab”, salienta.

Eleições e Covid-19

A cena política da Somália está a mudar gradualmente. A 20 de Fevereiro, o Presidente Mohamed assinou um projeto de lei eleitoral histórico, que permite a realização de eleições presidenciais e parlamentares diretas pela primeira vez em 51 anos. A última votação universal foi realizada em 1969, pouco antes do golpe militar. Nas eleições de 2009, 2012 e 2017, 14 mil delegados escolhidos por clãs elegeram legisladores.

A pandemia de Covid-19, no entanto, adiou os planos democráticos do país. "A Covid-19 está a ter um impacto económico grave, com as remessas da diáspora somali a diminuir e o governo federal a projetar queda de 11% do PIB nominal este ano", explica James Swan, chefe da Missão de Assistência das Nações Unidas para a Somália (UNSOM).

Swan diz que a intensificação dos ataques da al-Shabab e invasão de gafanhotos "que coloca em risco a produção de alimentos" agravam a crise gerada pela pandemia e fizeram com que as eleições presidenciais e parlamentares fossem adiadas para o início de 2021.

por:content_author: Abu-Bakarr Jalloh

 

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