Durante a apresentação do relatório em Dakar, a Human Rights Watch referiu que Jammeh “tratou as mulheres gambianas como se fossem objectos”. De acordo com os defensores dos Direitos Humanos, o ex-presidente e alguns dos seus antigos colaboradores recorreram à “coerção, impostura e violência” para obter favores sexuais, sendo que havia represálias contra as mulheres que recusavam ceder às pressões do antigo ditador.

Entre as alegadas vítimas citadas no relatório, encontra-se Fatou Jallow, a única que optou por testemunhar em nome próprio. Ela refere que em Dezembro de 2014, então com 18 anos e recém-eleita “rainha de beleza” num concurso transmitido na televisão, foi convidada durante 6 meses em diversas ocasiões por Jammeh que lhe ofereceu presentes e a pediu em casamento, o que ela recusou. Em Junho de 2015, de acordo com a jovem, o antigo presidente fechou-a numa das divisões do seu palácio, ameaçou-a de morte, injectou-lhe uma substância, imobilizou-a e em seguida violou-a. Poucos dias depois, ela acabou por fugir para o Senegal.

Duas outras mulheres que testemunharam anonimamente indicam igualmente ter sido alvo de abusos sexuais. Uma quarta mulher, Fatoumata Sandeng, cantora conhecida em 2015 e filha de um opositor, afirma ter sido forçada por colaboradores de Yahya Jammeh a deslocar-se para a aldeia dele, só tendo tido a possibilidade de sair do seu hotel ao fim de três dias sem ter tido nenhum contacto com ele. Fatoumata Sandeng acredita que a intenção teria sido de a “apanhar numa armadilha”.

Ainda de acordo com o relatório hoje apresentado, neste esquema em que o Presidente também contratava “protocol girls”, jovens mulheres que trabalhavam como assistentes mas que acabavam invariavelmente por ser alvo de abusos sexuais, Yahya Jammeh era ajudado por Jimbee Jammeh, uma prima, que tinha a responsabilidade de recrutar e vigiar as alegadas vítimas.

Yahya Jammeh que, para além dos abusos sexuais hoje denunciados, é acusado pelo actual governo do seu país de ter desviado pelo menos 362 milhões de Dólares, é suspeito também de ter mandatado execuções sumárias, torturas, perseguições a opositores e jornalistas e outros atropelos durante os 22 anos em que esteve no poder. Chegado à presidência da Gâmbia através de um golpe de Estado, Jammeh saiu do poder sob pressão regional, depois de uma crise pós-eleitoral provocada pela sua recusa em reconhecer a sua derrota nas presidenciais de 2016. Desde esse período, encontrou refúgio na Guiné-Equatorial.

Em 2018, foi instituída uma Comissão Verdade e Reconciliação (TRRC) para investigar os presumíveis crimes cometidos pelo antigo ditador. Neste mês de Junho, esta entidade composta por 11 comissários independentes encetou a sua quinta serie de audiências, estando previstas sessões dedicadas às violências sexuais. Antes do início dos trabalhos desta comissão, o actual Presidente da Gâmbia, Adama Barrow, indicou que iria esperar pelo fim da investigação da TRRC para se pronunciar quanto a um pedido de extradição. Para Reed Brody, conselheiro jurídico e porta-voz da Human Rights Watch, Yahya Jammeh tem de ser extraditado e julgado na Gâmbia.


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