Os objetos foram entregues oficialmente esta quinta-feira (28.02) pelo estado alemão de Baden-Württemberg ao Presidente namibiano Hage Geingob, numa cerimónia que contou com a presença de milhares de namibianos, incluindo o fundador do país, Sam Nujoma.

A devolução dos artefactos é um gesto que, segundo o Governo alemão, deve ser entendido como prova de que a Alemanha, "não podendo apagar o seu passado colonial, está a enfrentá-lo".

Roubados pelos alemães em 1893, estes objetos estavam em exposição no Museu Linden, em Estugarda, desde 1902.

"Esta devolução tem um grande significado simbólico, porque Hendrik Witbooi é uma figura importante na Namíbia. Queremos estabelecer um diálogo próximo com os nossos parceiros", afirmou Sandra Ferracuti, curadora deste museu.

Polémica

Há já vários anos que o Governo da Namíbia pedia à Alemanha a devolução destes dois objectos, que seguem agora para o arquivo nacional do país, até que seja construído um museu na cidade natal de Witbooi, Gibeon. No entanto, nem todos concordam.

A Associação de Líderes Tradicionais Nama entende que a Bíblia e o chicote pertencem aos herdeiros de Witbooi e não ao Governo da Namíbia.

"Estes objetos pertenciam a um indivíduo. Se eram parte do património da família, teriam de ser devolvidos à Igreja ou à família, e a família teria decidido o que fazer com eles. Mas as coisas foram decididas por pessoas que não têm relação direta ao assunto", diz o secretário-geral da associação, Lázaro Kairabeb.

No país, a desconfiança de associações como esta face ao Governo é grande. O Executivo é maioritariamente composto por membros da etnia Ovambo. Os povos Herero e Nama, que representam, atualmente, apenas 12% da população, acusam Windhoek de não representar o suficiente os grupos étnicos que foram perseguidos, afirmando mesmo que a "História tem estado a ser sufocada" no país. Nas escolas, por exemplo, pouco se fala sobre o genocídio, diz Lazarus Kairabeb.

Mas o Executivo refuta as acusações. "O Governo tem mantido a porta [do diálogo] aberta. Os namibianos que não fazem parte das negociações devem ser persuadidos a participar, porque o objetivo não passa por beneficiar apenas algumas pessoas", comenta Peter Katjavivi, porta-voz da Assembleia da Namíbia.

Namíbia espera pedido de desculpas

Para além da entrega dos artefactos pertencentes a Hendrick Witbooi, Berlim doou à Namíbia 1,2 milhões de euros destinados a projetos de investigação e museus no país.

Estima-se que, entre 1904 e 1908, cerca de 100 mil pessoas das tribos Herero e Nama tenham sido assassinadas pelas forças coloniais alemãs, naquilo a que o Governo alemão reconheceu, em 2015, ter sido um genocídio, o primeiro do século XX. Apesar das negociações entre os dois países, a Namíbia continua à espera de um pedido de desculpas oficial por parte da Alemanha.

No ano passado, em Berlim, a Alemanha devolveu à Namíbia os restos mortais de membros das tribos Herero e Nama, mortos durante o genocídio. Recentemente, o ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Müller, disse estar otimista de que os dois países possam chegar a acordo sobre compensações pelo genocídio, até ao final do ano.

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