Considerada a protegida de Angela Merkel, conhecida por "mini-Merkel", Kramp-Karrenbauer deixa o partido com menos de 30% nas sondagens e sem um candidato para as próximas legislativas, marcadas para outubro de 2021.

"Há uma crise em aberto. AKK perdeu, por um lado, o controlo das bases do próprio partido no leste da Alemanha e, por outro lado, a confiança que tinha na chanceler. Angela Merkel comentou, quando visitava a África do Sul, a crise na Turíngia, condenando o que estava a acontecer. Foi também uma forma de condenar a atuação da própria AKK", revelou o analista político Ulrich von Alemann à agência Lusa.

O anúncio da demissão foi feito na manhã desta segunda-feira (10.02), numa reunião interna do partido, depois de no estado federado da Turíngia, no leste, a CDU ter ajudado a escolher para primeiro-ministro um membro da Alternativa para a Alemanha (AfD), desrespeitando as indicações de AKK.

A propósito dessa eleição, Merkel afirmou ser "indesculpável" um partido democrático formar maioria com a extrema-direita, sublinhando a necessidade de reverter a situação.

A surpresa

Para von Alemann, a demissão foi surpreendente, pelo menos nesta altura. "Ninguém esperava esta decisão, pelo menos não tão cedo, talvez no Verão ou no Outono [europeus], quando tivesse de ser escolhido um candidato para chanceler", referiu.

"É muito negativo para o partido que esta situação se arraste até ao verão ou outono [europeus]. AKK disse que, primeiro, vai ajudar a escolher um novo candidato do partido para concorrer às eleições legislativas do próximo ano. Só depois disso irá abandonar a liderança e será feita uma votação interna para escolher um sucessor. Esse processo vai ferir a CDU nos resultados", sustentou o professor da Universidade de Dusseldorf.

Kramp-karrenbauer, de 57 anos, assumiu a liderança da CDU em dezembro de 2018, depois de vencer com pouca margem o advogado Friedrich Merz, um velho rival de Merkel, e Jens Spahn, atual ministro da saúde.

Quem são os favoritos?

A estes dois nomes, juntam-se outros dois possíveis candidatos, Armin Laschet, primeiro-ministro da Renânia do Norte-Vestefália, e Markus Söder, líder do partido irmão da CDU na Baviera.

"Acho que na verdade só há dois favoritos: Merz (mais à direita) e Laschet (mais moderado). São eles que têm o maior poder dentro do partido. Mas está tudo em aberto. Como é que vão escolher este novo líder? Talvez sujeitando todo o partido a votação, como fez o SPD, ou realizando um congresso, mas é difícil prever", considerou Ulrich von Alemann.

"Não sabemos se Merkel se irá afastar já este outono, dando a possibilidade ao novo candidato de enfrentar as legislativas antes de 2021, ou se irá cumprir o mandato até ao final. Nesse caso, o candidato terá de esperar e esperar, e será um pouco como agora, em que AKK não conseguiu segurar o partido e Merkel fez o seu próprio jogo", acrescentou o académico.

"Se o novo líder for Laschet, ele pode trabalhar com Merkel. Se for Merz, isso dificilmente acontecerá e teremos uma nova crise porque aí será ele que conduzirá a chanceler à demissão", explicou.

"Problemas de Berlim e do país foram demasiado grandes para ela"

A antiga governadora do Sarre soma à polémica na Turíngia, vários maus resultados eleitorais, tanto em regionais como nas europeias, crispações internas e piadas falhadas. AKK era apontada como a possível sucessora de Merkel, chanceler há 15 anos.

"Ela não está nada contente com o rumo do partido e com a atuação de AKK. Merkel considerou que AKK conseguiu lidar com algumas crises no interior da CDU, nomeadamente no Sarre, onde governou. Mas os problemas de Berlim e do país foram demasiado grandes para ela", concluiu von Alemann.

Annegret Kramp-Karrenbauer deverá continuar a ser ministra da Defesa, cargo que ocupa desde julho de 2019, sucedendo a Ursula von der Leyen.

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