Um novo estudo indica que provavelmente muitos países africanos vão sofrer uma recessão económica como consequência do surto do novo coronavírus. Só em 2020, estima-se que os governos africanos perderão cerca de 45 mil milhões de dólares (39,7 mil milhões de euros) em receitas - em parte, devido à pandemia de COVID-19, mas também como consequência da queda dos preços do petróleo.

O estudo - uma parceria entre o Instituto de Estudos de Segurança (ISS, na sigla em inglês), o Instituto Gordon de Ciências Empresariais (GIBS Business School) e o Centro Frederick S. Pardee para Futuros Internacionais - concluiu que os custos de amortização das dívidas e das taxas de juro já aumentaram para cerca de 40 mil milhões de dólares (35,3 mil milhões de euros) por ano, na sequência da desvalorização de muitas moedas africanas.

Crescimento económico tremeu

Apesar de se ter antevisto que a economia do continente iria crescer mais de 130%, África está agora mais atrasada, segundo o estudo, com um crescimento económico médio previsto de apenas 4,3% de 2020 a 2040.

A pandemia também empurrou 12 milhões de africanos para a pobreza extrema, número que poderá ascender aos 26 milhões em 2021. De acordo com as projeções do estudo, quase 570 milhões de africanos deverão viver em situação de pobreza extrema até 2030, mas a pandemia poderá levar este número ainda mais longe, até 631 milhões.

"O maior desafio é basicamente o crescimento [económico]", disse à DW Jakkie Cilliers, fundador e ex-diretor executivo do Instituto de Estudos de Segurança.

"A COVID-19 vai ter um enorme impacto no crescimento de África, enquanto tivermos de lidar com o impacto na saúde e na mortalidade a curto prazo, o que acentua a importância de reestruturar as economias africanas para um crescimento muito mais rápido. É a única coisa que vai permitir uma eventual recuperação da COVID-19", analisa Cilliers.

"O estudo surge num momento muito importante. E é a primeira projeção detalhada e a longo prazo do impacto sanitário e económico da pandemia em África até 2030", afirma Markus Ferber, deputado europeu e presidente da Fundação alemã Hanns Seidel (HSS), um dos financiadores do projeto de investigação.

"África será extremamente atingida, mas a crise também oferece uma oportunidade para uma transformação económica sustentável", explica Ferber.

Suspensão de dívidas?

O relatório, intitulado "Morte, dívida e oportunidade - o custo da COVID-19 em África" insta os investidores a suspender ou cancelar as dívidas dos diferentes países para ajudar o continente a recuperar das consequências do surto.

Muitos em África estão atualmente a lidar com o impacto imediato da pandemia com a inflação do preço de bens essenciais, como alimentos. Para aqueles que já lutam para sobreviver, a situação é particularmente difícil.

"Precisamos de ajuda, a comida é tão cara, tudo é caro. Onde é que os pobres vão arranjar alguma coisa para comer?", queixa-se à DW Mary Nanyonga, uma mãe de três filhos a viver na capital do Uganda, Kampala.

O marido de Nanyonga abandonou-a porque não tinha dinheiro para tomar conta dos filhos. Um vídeo que a mostra a ferver cascas de banana para alimentar os filhos tornou-se viral nas redes sociais. Ela diz ter esperado pela ajuda do Governo, mas em vão. Por isso, não teve outra alternativa senão alimentar os filhos com cascas de banana.

Governo apoia os ricos?

Os que possuem pequenos negócios, como os mototáxis, também foram duramente atingidos pela pandemia. Conhecidos no Uganda como "boda boda", os mototáxis foram proibidos durante três meses, uma vez que não era possível manter a distância de segurança entre o motorista e o passageiro.

"Estas atividades são muito incertas", constata à DW o economista ugandês Ramathan Goobi. "A maioria das pessoas que se dedicam ao setor informal não tinha poupanças. E o que é também mais interessante, o Governo planeia socorrer os ricos e não os pobres. O tipo de capital que está a ser investido no banco de desenvolvimento do Uganda destina-se principalmente aos ricos, sobretudo para a indústria de substituição de importações".

Embora Cilliers acredite que os governos africanos responderam adequadamente à crise em geral, as consequências económicas são agora a maior preocupação.

"[Os líderes africanos] seguiram o exemplo do que se passou primeiro na China e depois na Europa, no que respeita à tentativa de retardar a rápida propagação da doença", afirmou.

"Agora o grande desafio é, naturalmente, tentar lidar com as consequências económicas disso, porque não podemos manter o confinamento indefinidamente em África", admite o fundador do ISS.

Setor da saúde abalado

O setor da saúde em África pode tornar-se ainda mais fraco à medida que os governos desviam recursos para a luta contra a COVID-19 em detrimento de outras doenças perigosas no continente.

O estudo toma como exemplo o surto de Ébola na Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, entre 2014 e 2016, que levou a um aumento das taxas de malária, HIV/SIDA, tuberculose e mortalidade materna.

Se os recursos forem igualmente encaminhados para a contenção e o tratamento da COVID-19, a taxa de mortalidade por HIV, tuberculose e malária poderá aumentar até 36% em todo o continente ao longo de cinco anos, de acordo com a análise.

Luz ao fundo do túnel

No entanto, o estudo salienta também um futuro potencialmente brilhante para as economias africanas. Isto se os governos não se limitarem a confiar em medidas de emergência para combater a pandemia e, em vez disso, se concentrarem no reforço da resiliência e nas perspetivas de crescimento a longo prazo, colocando mais recursos na saúde e nas infraestruturas básicas.

"Penso que [a crise do coronavírus] sublinha a importância de utilizar a quarta revolução industrial, a digitalização, a economia digital e acelerar esse movimento", analisa Cilliers.

"África já estava, de certa forma, a embarcar nessa viagem. E, partindo de um nível baixo, podemos avançar muito rapidamente. E vemos melhorias rápidas a acontecer na África Oriental. Mas precisamos de acelerar esse ritmo", observa o fundador do ISS.

O relatório concluiu que a crise do coronavírus pode efetivamente ajudar a agilizar uma transição digital em África e facilitar as novas tecnologias, impulsionando o continente rumo a uma economia mais sustentável. As modernas tecnologias de energias renováveis, por exemplo, poderiam ser utilizadas para estabelecer redes inteligentes, sistemas solares domésticos e pontos de acesso à água, ajudando também a gerir os resíduos.

Tecnologia financeira: uma oportunidade?

A tecnologia financeira, também chamada de "fintech", apresenta tremendas oportunidades para transações comerciais. Exemplo disso é o serviço de transferência de dinheiro móvel M-Pesa da Safaricom, na África Oriental.

Segundo Ebehijie Momoh, diretor-geral da MasterCard para a África Ocidental, uma vaga de aplicações de fácil utilização, com dados reduzidos, poderia ajudar os comerciantes e consumidores a contornar as longas filas de espera nos bancos.

Na semana passada, no lançamento do relatório do centro de pesquisa britânico Economist Intelligence Unit intitulado "Ponto da situação: Fintech na Nigéria", Momoh afirmou que os bancos convencionais, que tradicionalmente são lentos a reagir aos avanços tecnológicos, estão agora a adaptar-se rapidamente para oferecer aplicações e ferramentas em áreas como os empréstimos. As empresas de telecomunicações e retalhistas, como os supermercados, estão também agora a integrar esta tecnologia nos seus modelos de negócio.

O exemplo da Nigéria

A Nigéria alberga um dos poucos, mas promissores polos tecnológicos em África, que prosperam com o crescimento da ligação à Internet – e os preços acessíveis. No entanto, para se tornarem competitivas, as tecnologias financeiras na Nigéria necessitam de um forte investimento de capital.

Há disponibilidade para investimentos de capital de risco, mas a maioria vem do estrangeiro e os investidores nigerianos desempenham hoje um pequeno papel", explicou Momoh. "A história das fintech em África é já uma das maiores histórias de sucesso tecnológico do mundo", acrescentou.

Uma investigação do Ecobank revelou que a indústria fintech africana valerá mais de 3 mil milhões de dólares este ano.

Olhando para o futuro, Cilliers está otimista no que diz respeito ao futuro económico de África. Mas adverte que não vai ser um caminho fácil.

"Não existe uma receita mágica para trazer um futuro mais próspero ao continente", explicou. "Na verdade, é o mesmo caminho percorrido por outros países e depende muito de lideranças e de políticas adequadas".

por: Abu-Bakarr Jalloh, Alex Gitta (Kampala), mc

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.