A conferência internacional "A parceria África-Europa em construção: que futuro?" começou esta quinta-feira, dia 13, em Lisboa. A crise internacional, os desafios demográficos e as ameaças de segurança foram os temas debatidos.
 
Adebayo Olukoshi começou por salientar que a "crise europeia não é necessariamente uma crise africana", tendo em conta que seis dos países em crescimento acelerado são africanos. Olukoshi é director da UN African Institute for Economic Development and Planning (IDEP) e director executivo do Africa Governance Institute, no Dakar.
 
"Eurodescentralizar" foi o ponto de partida proposto por Hélder Oliveira, da Fundação Portugal-África e moderador da primeira sessão desta conferência  a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian. Para Hélder, o sentido da conferência seria "deixar de ser eurocêntrico".
 
Os efeitos combinados da crise financeira internacional e da crise do Euro, bem como o debate sobre os modelos de austeridade versus modelos de crescimento, continuarão a influenciar a parceria e as perspectivas de cooperação UE-África.
 
Devido à crise, vários países europeus cortaram "dramaticamente" o seu orçamento, segundo o professor visitante do Colégio da Europa, em Bruges, Damien Helly. O investimento europeu desceu. "Sim, a crise tem um impacto, mas existe o sector privado", salienta.
 
Para a construção de uma parceria África-Europa há que mudar de visão. Conforme Fernando Jorge Cardoso, coordenador do Instituto Marquês de Valle Flôr Think Tank (IMVF), em Lisboa, "o diálogo África-Europa não pode ser assente na cooperação para o desenvolvimento". Esta cooperação deve fazer parte desse diálogo, mas há que acrescentar "o investimento directo".
 
Em África, colocam-se mais desafios, como a desburocratização e a contribuição da população para o orçamento, numa altura em que diminuem as ajudas externas e se procura definir a agenda global para o desenvolvimento pós-2015.
 
Alcinda Honwana chamou a atenção para a população jovem que enfrenta "uma transição difícil para a vida adulta". Honwana é moçambicana e professora visitante na Open University, Reino Unido e na Columbia University, em Nova Iorque.
 
É através da expressão moçambicana "desenrascar a vida", que Alcinda descreve a situação vivida pelos jovens, afectados pelo desemprego. O desafio será criar postos de trabalho para esta camada social.
 
Ana Pires de Carvalho indica que " a Europa e a África não têm pensado muito nas dinâmicas demográficas". Investigadora no Centro de Análises de Políticas, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Pires de Carvalho refere que "o crescimento da população em África é o mais elevado da história da humanidade".
 
Tendo em conta os efeitos do rápido crescimento populacional, a investigadora mostra que será necessário "criar 3 milhões de novos postos de  trabalho em 15 anos".  É aqui que a UE pode ajudar, segundo Pires de Carvalho, que coloca como solução o planeamento familiar em grande escala.
 
Para Victor Angelo, antigo secretário-geral adjunto e representante especial das Nações Unidas, o nome das relações entre a Europa e a África podia ser "indiferença".
 
De acordo com o antigo director, os líderes europeus "não estão mais ligados emocionalmente com a África".
 
Angelo alerta para a crise alimentar e para a necessidade da África produzir mais. O papel da Europa será o de apoiar e impulsionar a "revolução verde" e a agricultura africana.
 
"As cidades africanas vão se expandir depressa e catastroficamente", remata.
 
Segurança e paz são condições necessárias ao desenvolvimento na Europa e na África. A proliferação de armas resultante do fim do regime de Khadafy tem alimentado grupos rebeldes e jihadistas numa vasta zona do Norte, do Sahel e da África subsaariana limítrofe, como o caso do Mali bem ilustra.
 
África é (re)colocada no mapa estratégico internacional, devido ao agravamento da situação de segurança e das suas implicações na segurança internacional. É igualmente um desafio para a política externa da União Europeia e para as prioridades africanas de segurança.
 
O debate sobre o futuro da parceria África-Europa continua e encerra esta sexta-feira, dia 14, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Nesta sessão, serão debatidos os fluxos e actores do desenvolvimento.

@Ana Oliveira
 

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.