Todos os anos, a 7 de abril, o Ruanda junta-se para recordar as vítimas do genocído de 1994. Neste dia, há 26 anos, tinha início um dos períodos mais negros da história da Humanidade: o massacre de mais de 800 mil pessoas da minoria tutsi e hutus moderados às mãos de hutus radicais, durante uma centena de dias, perante a inércia da comunidade internacional.

Este ano, dadas as medidas em vigor para conter a pandemia de COVID-19, as cerimónias têm uma assistência muito limitada e obedecem a diretrizes específicas. O Ruanda foi um dos primeiros países africanos a entrar em bloqueio total para travar o novo coronavírus e o Governo destacou polícias e militares para garantir que a população fica em casa.

Os ruandeses estão a acompanhar pela televisão e nas redes sociais as cerimónias dos 26 anos do genocídio, que arrancaram esta manhã, com a deslocação do Presidente Paul Kagame ao Memorial do Genocídio em Kigali. O chefe de Estado acendeu a Chama da Recordação, que ficará acesa durante 100 dias.

Pela primeira vez, o Governo cancelou os tradicionais desfiles (Walk to Remember, em português, a Marcha para Recordar) e a vigília noturna no estádio nacional, dois dos eventos mais marcantes das cerimónias anuais. A Comissão Nacional para a Luta contra o Genocídio também suspendeu as visitas aos memoriais do genocídio.

A Comissão anunciou que a marcha será substituída por um programa de televisão e a vigília noturna pela transmissão de histórias de sucesso de sobreviventes em vários meios de comunicação. Segundo a imprensa local, as comemorações deste ano centram-se no impacto da digitalização dos registos históricos do genocídio e no papel da juventude na luta contra a negação e ideologia do genocídio.

"Estas circunstâncias invulgares não nos vão impedir de cumprir a nossa obrigação de recordar os que perdemos e consolar os sobreviventes. Só muda a forma como o fazemos", disse o chefe de Estado ruandês, numa mensagem em vídeo.

O rastilho do massacre da minoria Tutsi data de 6 de abril de 1994, quando um avião que transportava o Presidente Juvénal Habyarimana foi abatido em Kigali, matando o líder que, como a maioria dos ruandeses, pertencia à etnia Hutu. Os tutsis foram culpados pela queda do avião e extremistas hutus mataram milhares de pessoas, incluindo crianças, com o apoio do exército, polícia e milícias, durante 100 dias.

Agora, Kigali recorda as vítimas em silêncio. As ruas estão desertas, numa altura em que o Ruanda tem 105 casos confirmados do novo coronavírus e o Governo prolongou o bloqueio por duas semanas.

Garantir enterros dignos

É neste cenário que o Ruanda está a proceder à exumação de 30 mil cadáveres de vítimas do genocídio, no distrito de Kayonza, no leste do país. Até ao momento, foram recuperados 50 restos mortais, enterrados debaixo de um pântano, adiantou Naphtal Ahishakyiye, porta-voz da organização governamental Ibuka, que reúne sobreviventes do genocídio.

"Recebemos informação em setembro de que cerca de 30 mil corpos foram atirados para esta área, mas, devido às características do terreno, não pudemos exumá-los até conseguimos secar o pântano", justificou, em declarações à agência espanhola Efe.

O processo de exumação levará vários meses a estar concluído e a entrega dos restos mortais aos familiares das vítimas vai acontecer em diferentes momentos.

Esta é a descoberta de vítimas do genocídio no Ruanda mais significativa dos últimos anos. O Ruanda continua empenhado em garantir um enterro digno aos tutsis e hutus moderados que foram massacrados às mãos dos hutus radicais. A recusa dos autores do genocídio em fornecer dados sobre a localização das vítimas tem adiado os trabalhos de exumação, segundo o Governo.

O novo coronavírus está também a dificultar os trabalhos, segundo Naphtal Ahishakyiye: "Exumar corpos durante a pandemia de Covid-19 é um grande desafio, porque as pessoas não se podem reunir", explicou. "Mas estamos a dar o nosso melhor para darmos um enterro digno aos mortos".

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