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"Só ganhei o meu respeito em África" - António Lobo Antunes (C/Vídeo e C/ Áudio)

04 de Fevereiro de 2011, 09:15

***Serviço Áudio e Vídeo disponível em www.lusa.pt ***

*** Pedro Rosa Mendes, da Agência Lusa ***

Paris, 04 fev (Lusa) -- A guerra em Angola é uma memória "dorida" para António Lobo Antunes mas o escritor afirma que foi em África que ganhou o "respeito" por si próprio.

"Eu só comecei a ganhar o meu respeito em África. Porque tinha vergonha de mim", afirmou António Lobo Antunes numa entrevista à Agência Lusa, em Paris, onde esteve para promover a tradução francesa do romance "O Meu Nome é Legião".

"Lembro-me vagamente de um discurso de Salazar. Julgo que, na altura, tomei por boa a explicação de uma revolta de bandidos e de canalhas que estavam fazendo coisas cruéis e horríveis em África e portanto o governo português mandava para lá uma força pacificadora, quase de polícia, para resolver o problema", recorda hoje o escritor.

"Acho que me portei bem em África", afirmou Lobo Antunes, que combateu em Angola como jovem oficial do Exército português em 1971-72.

"Consegui uma coisa que é muito rara e que é um dos meus orgulhos, que é o respeito dos meus soldados. Eram garotos de 20 anos. Eles só amam quem respeitam. Encontramo-nos todos os anos e a maneira como eles me tratam comove-me sempre. Se eu me tivesse portado mal, eles desprezavam-me", declarou Lobo Antunes.

"Eu só tenho a dizer bem do Exército português. Os nossos oficiais, os que conheci, que eram poucos, portaram-se com imensa dignidade. Por paradoxal que possa parecer, tive orgulho de estar ao lado daqueles homens", acrescentou o escritor, que ao longo da entrevista recordou a figura de Ernesto Melo Antunes, "um homem superior".

Dos soldados portugueses em combate, Lobo Antunes diz que "os rapazes eram extraordinários". Um oficial cubano disse-lhe mais tarde que "éramos grandes soldados. Então compreendi porque é que fomos nós que fomos à Índia".

Sobre o comportamento dos soldados portugueses, o escritor recorda que "eram como os oficiais: obedeciam a quem respeitavam. Daí haver pelotões muito melhores que outros, porque havia oficiais mais corajosos que outros e com mais capacidade de decisão debaixo de fogo".

A guerra foi para Lobo Antunes "uma aprendizagem muito lenta, muito difícil e cheia de culpabilidade". Cada um tinha os seus valores mas "nunca houve uma conversa" sobre isso entre as tropas, sublinha Lobo Antunes, que recorda uma cena do filme "Non, ou a Vã Glória de Mandar", de Manoel de Oliveira.

"Os soldados vão num Unimog a discutir da justiça e da injustiça da guerra. Fiquei furioso com aquilo. Nós lá estávamos apenas ocupados em chegar ao dia seguinte", diz Lobo Antunes.

"Lembro-me de uma carta do Ernesto, lá: 'Cada vez mais isto me parece um erro formidável'", acrescentou o companheiro de armas e amigo de Melo Antunes, que morreu "com grande dignidade" aos 66 anos, vítima de um cancro.

"Continuamos todos em guerra", responde Lobo Antunes quando questionado sobre o seu silêncio em torno dos anos na tropa, comum a muitos antigos combatentes.

"Nunca acaba. As outras pessoas não compreendem. Muitos daqueles rapazes continuam lá e o tema constante das conversas deles é aquilo. O sofrimento, a revolta, o horror daquilo tudo. Cada vez que eu como com os oficiais da minha companhia, sei que nessa noite não durmo", contou Lobo Antunes.

"Um dos meus oficiais, que morreu há relativamente pouco tempo num acidente brutal de automóvel, estava um dia numa bomba de gasolina e um carro passou-lhe à frente e ele foi de imediato ao porta-luvas buscar a pistola. Um homem doce. Mas a primeira reação emocional dele foi imediata. Era muito difícil elaborar estas emoções. Havia como que uma regressão e voltávamos àquele estado", recordou o escritor.

"É uma pena mas ainda não se fez o grande livro sobre a guerra. Tem que ser muito mais que um romance, tem que ser um documento e não é para mim", conclui António Lobo Antunes. "Terá que ser feito com olhos mais frios e ser feito falando com aquelas pessoas. Com os soldados, não com os chefes."

Lusa/Fim


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